O leitor comum

Naquele tempo certas doenças, que farão este texto parecer jurássico, como sarampo, catapora e outras do gênero condenavam as crianças à cama por alguns dias. Benditas mazelas que me jogaram ao confinamento e me concederam a intimidade do silêncio aos meus cinco anos de idade na gélida São Gabriel. Foi nesse capítulo de minha existência que aprendi a ler. Lia gibis que meu pai trazia na tentativa de aplacar a monotonia.Fez-se o hábito, mas passados alguns meses veio o aviso: “está na hora de ler livros sem figuras.” E começaram a vir biografias, romances, Mario Quintana, Érico Veríssimo e aos meus doze anos Guerra e Paz, logo em seguida Os Possessos. Não, não teve Monteiro Lobato.Também não freqüentei jardim de infância. Já estou creditando a essa lacuna a responsabilidade pelo fim dos meus casamentos e certa dificuldade para recortar. Seja qual for não dá mais para remendar. Por estes e outros episódios é que não acredito e repudio a idéia da tal da reencarnação, nem pensar em ser filho de outro, mas se pudermos deixar tudo acertado de antemão, quem sabe. De modo que esse homem que me ensinou a ler é meu modelo de leitor. Um leitor comum assim como eu.
Essas lembranças me chegaram durante a leitura de O leitor comum de Virginia Woolf, ensaios selecionados a partir de duas séries publicadas em 1925 e 1932. Onze textos da primeira e três da segunda série onde o leitor perceberá as preferências da autora pelos escritores ingleses, Conrad, Jane Austen, Daniel Defoe, Shakespeare e os estrangeiros, Montaigne, Dostoievski, Tchekov e Tolstói, este no entender de Virginia o maior de todos.
Convém não esquecer Kant, estamos diante de juízos da autora, juízos reflexivos, o fato de ser uma autoridade no assunto fazer literário não significa o mesmo quando se trata de analisar a literatura. E as análises de Virginia neste O leitor comum são tão somente subjetivas. As tentativas de aproximação com o leitor são revestidas de uma sisudez auto-referente que em determinados momentos, na ânsia de ensinar como fazer literatura faz lembrar certos livros de auto-ajuda. Sugiro que, concluída a leitura da coletânea de Virginia, leia, curioso leitor, ou melhor, aprecie sem moderação A literatura na poltrona-ed.Record, do “mestre” José Castello.
Não estou cometendo nenhuma heresia, simplesmente sigo o recomendado por Virginia Woolf, pg.132: “ Nesse momento se projetam em nossa mente os modelos dos livros que lemos já consolidados por juízos que sobre eles nos transmitiram – Robinson Crusoe, Emma, The Return of the Native. Compare os romances com esses – mesmo o último e menor dos romances tem o direito de ser examinado diante do melhor.” A comparação feita não foi, contrariando Virginia Woolf, no sentido de definir o melhor, creio que melhor e pior seja mais adequado às imposições do jóquei clube, mas simplesmente chamar a atenção para um livro onde erudição, descontração e conhecimento do fazer literário se unem no sentido de aproximar leitor comum, autores e obras. Importante ressaltar que em Castelo o leitor não percebe em momento algum estar diante do texto do “dono da verdade”, já em Woolf...Talvez por isso não encontremos nele os equívocos, as contradições cometidas por ela em suas investidas pelo território da critica. Você está esperando um exemplo, pois bem: Sua editora, a Hogarth Press, rejeitou os originais de Ulisses e Virginia falaria mal do romance de Joyce – “uma memorável catástrofe” – até o dia de seu derradeiro mergulho.
Porém, e porém via de regra é sinal de perigo , Mrs. Dalloway (1925) narra um dia na vida de uma mulher e Ulisses (1922) relata um dia na vida de um homem. Que coincidência! Mas não é só isso. To the Lighthouse (1927) é o relato de algumas horas na vida de algumas pessoas e nessas horas é permitido ao leitor ver o passado e o futuro delas. Não, ainda não acabou. Em Orlando(1928) talvez sua obra mais conhecida, todos sabem que o tempo é o protagonista. Só mais um exemplo, com a sua permissão paciente leitor. Em As Ondas(1931) a autora confere a cada hora de um determinado dia, desde o amanhecer até a noite, uma época de sua vida.
Você também achou estranho?Notou algumas semelhanças? Tempo,tempo,tempo... E tudo depois da publicação da “memorável catástrofe”que a autora lia nas páginas de Little Review. É...mas o que seria das literatura sem as contradições? Relevemo...relevemos pois.
Convém lembrar os pontos altos de “O leitor comum”: O primeiro é “Como se deve ler um livro?”, curioso ensaio a respeito do rigor poético com que o leitor deve enfrentar suas leituras, aqui a autora deixa de lado todo o formalismo e regras que pululam em todas instâncias referentes à literatura. Vale o livro.
O segundo é “Ficção Moderna”, escrito em 1919 elege justamente o autor de Ulisses como a grande expressão desse novo tempo, é nesse momento que Virginia lê Ulisses na Little Review e a respeito da cena do cemitério diz: “A cena no cemitério, por exemplo, com seu brilho, sua sordidez, sua incoerência, seus súbitos lampejos de significação, penetra sem dúvida alguma tão no cerne da cabeça que, mesmo em uma primeira leitura, é difícil não proclamá-la uma obra-prima.” Vai entender...
O terceiro é “O ponto de vista dos russos” onde a autora estabelece a grande diferença entre os russos, os três anteriormente citados, e os demais autores. Diz Virginia que na obra de Dostoievski quanto na de Tchekov sobressai a alma, enquanto em Tolstói predomina a vida. Soa estranha a precisão com que a autora faz tamanha distinção, este aprendiz não vê pela mesma lente e arrisca dizer que os três são na verdade grandes filósofos que conseguem emprestar corpo às idéias.
Paciente leitor, pouco tempo depois daquele homem dizer com expressão inesquecível que chegara a hora de ler livros sem figuras ele trouxe para nossa casa, Guerra e Paz e Os Possessos, de modo que posso dizer que cresci com os russos. Mais tarde,ao dar de car com a união do gênero policial e o melodrama em Crime e Castigo me permitiu ver como é possível trazer o fato mais comezinho para o ambiente erudito. Com a sua permissão, caro leitor, importante lembrar que uma das influências de Nietzsche foi justamente Dostoievski.
Pois excetuando a permanência do juízo vale a pena a leitura de “O leitor comum”,mas por favor, leia “A literatura na poltrona” , depois. Sempre depois.
Antes de concluir é bom voltarmos a questão do tempo na obra de Virginia Woolf, para ser mais preciso, nas citadas anteriormente onde tal característica foi apontada como devedora do Ulisses, de James Joyce, porém, olha o porém aqui de novo, vale ressaltar nossa tendência a incensar o estrangeiro, na esteira vem também o estranho e aos “da casa” nosso esquecimento.
Combinamos que o assunto seria o tempo, então vamos lá: você já leu Pedro Nava? Você já leu O Tempo e o Vento, a saga dos Terra Cambará e dos Amaral, percebeu os significados cunhados por Érico Verissimo para tempo e memória?
E eu concluo me perguntando o que diria Virginia Woolf a respeito.
Bem, lidos Woolf e Castelo, vou reler Incidente em Antares em meio ao vôo no tempo que me levará àqueles dias de confinamento e silêncio.
TRECHO
Olhe por perto e a vida, parece, está muito longe de ser “assim”. Examine por um momento uma mente comum e um dia comum. A mente capta uma miríade de impressões – trivial, fantástica, evanescente ou esculpida com a firmeza do aço. De todos os lados elas vêm, uma incessante exposição de inumeráveis átomos; e enquanto caem, enquanto se acomodam à vidinha de segunda ou terça-feira, a ênfase recai diferentemente da antiga; o momento de importância aparece não aqui, mas ali; portanto, se o escritor for um homem livre e não um escravo, se puder escrever o que escolheu, não o que deve, se puder basear sua obra em sua própria intuição e não sobre a convenção, não haverá trama, nem comédia, nem tragédia, nem interesse amoroso ou catástrofe no estilo aceito, nem, talvez, sequer um único botão costurado como são os ternos de Bond Street. A vida não é uma sucessão de lanternas de carruagem dispostas em simetria; a vida é um halo luminoso, um invólucro semi-transparente nos envolvendo dos primórdios da consciência até o fim. Não é tarefa do romancista comunicar esta variedade, espírito desconhecido e ilimitado, qualquer que seja sua aberração ou complexidade, com tão pequena mistura de estranheza e formalidade quanto possível? Não estamos pleiteando simplesmente coragem e sinceridade; estamos sugerindo que o estofo próprio da ficção é pouco mais do que os costumes em que nos fizeram acreditar.

SOBRE A AUTORA
Virginia Woolf nasceu em Londres a 25 de janeiro de 1882, terceira dos quatro filhos de Julia e Leslie Stephen. Seu pai, editor e filósofo procurou dar aos filhos a melhor educação. Virginia Woolf, como era comum as mulheres da época, nunca freqüentou regularmente uma escola.
Desde menina tinha contato com o mundo intelectual e literário através dos amigos do pai, mais tarde os substituiria pelos amigos de seus dois irmãos universitários de Cambridge.
Virginia escreveu alguns dos mais importantes romances do século vinte: “Orlando”, “As Ondas”, “Mrs. Dalloway”, “Uma Casa Assombrada”.
Morreu no dia 28 de março de 1941, aos 59 anos, afogando-se nas águas do rio Ouse, cidade de Lewles, condado de Sussex, Inglaterra. Escreveu duas cartas de despedida, uma para sua irmã Vanessa Bell, outra para o marido, Leonardo Woolf e se dirigiu ao rio, pôs uma pedra grande no bolso de sua capa, e mergulhou.
Luiz Horácio, jornalista e escritor, autor de Percilina e o pássaro com alma de cão (ed. Conex, SP, 2006)

Corações Blues e Serpentinas de Lima Trindade

O BALÃO AMARELO



A feira cobria toda a extensão da praça. Homens, mulheres e crianças comendo, comprando, vestindo, experimentando. Os carros no estacionamento subiam uns nos outros, gritavam. Casais se encostavam em árvores, encolhiam-se em bancos. A lua acolhia e iluminava. Meu bem vinha caminhando ao meu lado quando parou e anunciou que precisava fazer uma ligação. Assenti, feliz que estava com o novo anel no dedo, imitação de aliança quase igual à dele. Da cadeira esquecida numa barraca, eu o olhava na fila, aguardando gente apaixonada falando distante. E acompanhava a movimentação colorida e alegre que se entrelaçava à minha frente. Próximo, pais afoitos continham meninos diante de um homem que enchia de gás balões coloridos. Era um rapaz e não se inquietava com os pedidos e protestos tenazes das crianças, apenas baixava a alavanca quando a boca do balão estava encaixada no pistom. Provavelmente tinha filhos e vendia balões para sustentá-los. Meu bem, paciente, após a espera na fila, finalmente conseguiu chegar ao orelhão. Mordi os lábios. O rapaz enchia os balões um a um. No final, dava-lhes um nó, entortava, torcia, até que adquirissem uma forma engraçada qualquer. Quando começava a esculpir um balão amarelo longo como uma cobra, este teimou e desafiadoramente se desprendeu de suas mãos. Meu bem sorria longe, o fone entre o rosto e o ombro e uma das mãos no bolso do jeans. O balão amarelo dançava lento no vácuo. Estalei os dedos. Meu bem agora falava animado. Eu não o ouvia. De repente parou, deteve os olhos em mim e se virou de costas. Procurei o balão no céu. Ele já avançava sobre os postes de luz improvisados. E recordei da estranha manhã em que eu era muito pequeno e mal tinha aprendido a andar. Estava só, na frente da nossa casa, no meio da rua, numa ladeira. No final, o Lago. A cidade era uma armação desdentada e nós ainda morávamos em casas coletivas de madeira, próximo ao Paranoá. Tive medo de tropeçar, cair, rolar e parar dentro das águas do lago. Estava só e ainda hoje não sei como havia chegado ali nem como fiz para sair de lá. Eu não sabia falar e o medo paralisara meu choro. Sentia que uma fatalidade me levaria a cair, rolar e parar dentro das águas para morrer afogado. Não sei como saí. O balão amarelo ganhava altura e diminuía de tamanho. Meu bem virou novamente. Ele falava e eu reparava no quanto ele era forte, no quanto me inspirava segurança e proteção. Fez um aceno para que eu mantivesse a calma. O balão estava agora quase no meio do céu. De alongado, tornou-se redondo. Redondo como a bola que meu pai me jogava para que eu chutasse desajeitado. Estávamos na areia e alguns colegas e vizinhos brincavam conosco. Eu não sabia chutar direito, dava com os pés nos montes e reentrâncias da areia e via os outros rir. Mas meu pai não ria, insistia e jogava a bola para mim. Eu errava e não me sentia ridículo por errar. O balão não era mais amarelo. Virara um ponto branco igual às estrelas. E como estrela se apagou no mistério da noite. Eternizou-se. Meu bem desligou o telefone e veio em minha direção. O tempo era não mais que uma mentira, a vida tão simples quanto passear na feira e pedir um doce, alcançando com o coração o que anos de esforço e tentativas não me deram, sendo eu um pequeno balão amarelo a fugir de hábeis mãos, ilustrar o escuro do céu e saber que nada era tão importante quanto estar ali, ao lado do meu bem, considerando como um tesouro o anel de brilho falso apertado no dedo.

Lima Trindade é autor de Supermercado da Solidão (romance, LGE, 2005) e Todo Sol mais o Espírito Santo (contos, Ateliê, 2005). Além disso, edita a revista eletrônica Verbo21. Este conto integra o livro Corações Blues e Serpentinas, publicado em outubro de 2007.

Todos os cantos e contos negreiros

Tem
negro de pele muito branca, quase albino mesmo, trabalhando descalço, capinando diuturnamente sua lavoura de fumo no interior do município de Sobradinho, no Rio Grande do Sul. Neto de imigrante pomerano é semi-analfabeto e não tem a maioria dos trinta e dois dentes da boca. Os que restam estão em caco. Tem negro amarelo de olhinhos puxados cuidando das suas hortaliças e tomateiros e sorrindo para o atravessador que vem explorá-lo na periferia de Cascavel, no Paraná. Bisneto de imigrantes japoneses, vindo, não de Honshu a maior ilha, o Japão aristocrata, mas de Okinawa e Hokaido, um Japão plebeu, sem terra e sem honra perante seus senhores feudais.Tem negro de todo matiz, carregam um sinal comum: a pobreza, a falta de instrução. Porque se fossem azuis e possuíssem dinheiro branqueavam na hora. A sociedade brasileira é oportunista. Mas como disse – e muito bem - meu colega Bira Azevedo na sua canção Trânsito: "Um negreiro vai / um negreiro vem / no bafio da onda / o bafão do trem //".O livro Contos Negreiros de Marcelino Freire, pernambucano, brasileiro, negro assumido na linha de Xangô, trata de todos os matizes possíveis dessa nossa uma pele que se revela multicor, e sob qualquer derme é negra. Marcelino expõe de forma contundente o preconceito. Usando uma linguagem forte, lírica, enxuta, deliciosa. Ele conta como falasse a nossos ouvidos, como se lesse para nós, entoando ao acordo a voz de cada personagem. Na mais pura tradição mourisca do contador de estórias que influenciou o cordel e o repente do seu amado Pernambuco..."Enquanto Zumbi trabalha cortando cana na zona da mata pernambucana Olorô-Quê vende carne de segunda a segunda ninguém vive aqui com a bunda preta pra cima tá me ouvindo bem?".(Trecho do Canto Primeiro – Trabalhadores do Brasil)Não ouvem não, Marcelino! Os negros de pele mais clara deste país não ouvem os de pele mais escura, e os de pele mais escura que têm dinheiro já não ouvem os negros de pele mais clara que não têm, nem os de pele retinta, também pobríssimos. Porque o sonho de todos os negros, que são todas as gentes deste imenso negreiro chamado Brasil, é galgar o estrelato no Big Brother. É virar Xuxa. É dar-se a brejeiradas fiscais e movimentar zilhões para comprar o mundo. Marcelino, ainda que não ouçam nitidamente, continua firme teu canto.
por Alexandre Florez, compositor e escritor

Desaforismos de Franklin Jorge

Ascese: A rotina é uma forma de ascese.
Alegria: A alegria, de essência vulgar, é o consolo dos pobres.
Arquivo: V.
Corpo.Artista: Um artista alegre é tão inconcebível quanto um boi voador.
Bagdad: V. Sertão.
Balé: O balé é por demais abstrato.
Café: Ópio dos intelectuais. Madame de Sévigné repudiou o café como um modismo de cortesãos. Não foi feliz quando lhe vaticinou um sucesso efêmero.
Carnaval: O carnaval é a ópera socializada.
Casamento: Comodidade que acaba incomodando. Suprema punição do indivíduo que recorre ao hábito da família.
Clube: A feira, popular e multitudinária, é o clube do homem sertanejo.
Corpo: Arquivo de sensações.
Criar: Criar, para burlar a morte.

Franklin Jorge (1952) nasceu na cidade de Ceará Mirim, no Rio Grande do Norte. Escritor eclético e enigmático, jornalista de renome, é autor de "Impróprio para menores de 18 anos" - Limiar, 1976, em parceria com a escritora Leila Míccolis; "Poemas Apócrifos" (in_Fantasmas Cotidianos - Navegos, 1994); "Abaixo do Equador" e "Ficções Fricções Africções" - Mares do Sul, 1999, ganhador do Prêmio Luís da Câmara Cascudo.* extraídos do livro "Ficções Fricções Africções"

Entrevista com o compositor Tom Gil

Qual foi a tua trajetória musical, percorrida do sertão (começo da carreira, primeiros trabalhos) até o porto (momento atual, lançamento do cd "Do Sertão ao Porto")?
Nasci em Várzea Alegre, região do cariri no centro sul do Ceará. Morei em zona rural a 15Km da sede até os 9 anos. Quando eu tinha 12, minha família mudou-se para Fortaleza, em êxodo rural (foi o primeiro porto). Aos 14, comecei a tocar violão de forma autodidata, em um digiorgio adquirido por um dos meus irmãos mais velhos. Aos 16, integrei um grupo de danças folclóricas da Escola Técnica Federal do Ceará onde cursei o segundo grau. Nesse grupo tocava zabumba e violão. Mais tarde integrei o coral da Universidade Federal do Ceará por dois anos. Nessa época, já compunha e participava de algumas apresentações coletivas em "showmícios" de partidos esquerdistas, festivais (na realidade só dois). Resido em Porto Alegre desde 95 (meu segundo porto). Aqui, continuei os estudos de violão que havia iniciado em Fortaleza, no Palestrina com o professor Jorge Noblega e, posteriormente, com James Liberato. Montei a banda "Virgulino Vírgula", juntamente com Mário Marmontel, quando na ocasião nos apresentamos em casas noturnas e em teatros de Poa. Gravamos dois cds demonstrativos da Virgulino. Integrei mais tarde a banda de forró “Cheiro de Fulô”, fazendo vocais de apoio e tocando zabumba, também na noite de Poa. Participei de três festivais da cidade de Porto Alegre e do festival da cidade de Queluz, no interior de São Paulo. Entre 97 e 2000 gravei meu primeiro cd de forma independente, intitulado "Novo Mundo". Em 2006, finalizei o “Do Sertão ao Porto”.



Qual é a proposta estética dessa "viagem" sertão-porto? Que história você conta, já que o cd tem unidade e estrutura definidas e as canções tem letras bastante literárias, alguns poemas musicados viraram canções, além de parcerias com poetas? Outra coisa: essa força literária que as letras possuem mostra uma preocupação bastante crítica com a situação histórica e social do país e da cultura nacional. Comenta uma pouco essa tua visão política, isso que aparece de forma bem incisiva no cd.
Bem, creio que para o artista é mais importante ter atitude estética do que outra atitude qualquer, quer seja política, social, comportamental, posto que o artista é objeto da arte e a obra fala por si ou pelo menos é o que se propõe. O que importa é a forma como a obra vai ser desenvolvida a partir de uma inspiração, um mote, uma motivação, um questionamento filosófico, um flash inicial, que pode ser uma indignação, um medo, um sentimento ameno, uma dúvida, ou qualquer coisa banal, que na verdade está armazenada na nossa memória afetiva ou intelectual e de repente, ou devagarinho mesmo, vem à tona na forma de uma expressão artística. Essa forma de expressão carrega muitas vezes reminiscências de nossa infância ou de um passado-presente não tão remoto, daí acho que, por isso, no meu trabalho existe esse traço mais rural (não ruralista), referências às minhas primeiras vivências musicais e afetivas em um contexto específico, o sertão nordestino. Mas também juntaram-se a essa pegada outros elementos, inevitáveis devido a minha vivência com o urbano, o porto. E é essa a proposta de "Do Sertão ao Porto": tentar expressar de forma musical e textual as minhas vivências, do rural ao urbano, como também o caminho percorrido entre esses dois pontos geográfico-culturais, na busca de uma identidade, já que a gente é o que vive. Exemplificaria com duas canções: De um lado, o coco metido a progressivo "cearacaju", reverencia os valores culturais do nordeste, inclusive sampliei a voz de um cantador de coco lá da cidade onde nasci. Noutra ponta, a balada estradeira, metida a pop, "janela para as estrelas", já tem uma mensagem filosófica, metafísica, fala de nossa eterna busca por um sentido, um equilíbrio, a nossa percepção do universo, não tem nada a ver com regionalismo. Em síntese, a proposta do cd é usar uma linguagem que todos compreendam, tanto quem mora na roça quanto quem mora na cidade, mas nem por isso tenho a pretensão de conquistar a unanimidade. Agora, em verdade, não sou um nacionalista afetado, mas não aceito a dominação mundial de uma "estética do império", e é essa a minha preocupação-indignação quando se fala de cultura nacional. Quanto aos parceiros poetas, graças ao convívio com meu irmão, Cândido Rolim( poeta) de certa forma passei a ter contato com a literatura, especialmente com a poesia. Também, tive o privilégio de por intermédio do Cândido, conhecer Ronald Augusto. E esses dois tornaram-se meus primeiros parceiros em algumas letras. Também o meu irmão me levou a conhecer o poeta perfomático carioca Fábio Dallas, que tem o poema "começo" musicado por mim ( última faixa do cd). Adquiri do meu irmão um livro de poesia de autoria de Ricardo Aleixo, poeta mineiro, e musiquei o seu poema "nanã", que está no cd também. Enfim, parafrasiando os poETs (grupo formado pelos poetas-músicos Ricardo Silvestrin, Alexandre Brito e Ronald Augusto), é saudável ouvir uma "música legal com letra bacana", e existe poesia que pede pra ser musicada e existe letra de música que mesmo quando lida e não cantada, não perde sua força literária, por isso é também poesia.



Gil, o cd traz alguns poemas musicados por ti e parcerias com poetas. Que importância tem a poesia nas tuas canções e na tua vida pessoal?
Tradicionalmente, no Brasil tem muita poesia na música. Apesar de letra de música e poesia não serem a mesma coisa, elas se aproximam muito e se entrecruzam no tocante ao ritmo, à métrica, à melopéia, às imagens e também a brincadeira com a lógica, com a razão. A palavra quando cantada, falada, declamada ou lida carrega diferentes nuances de sedução mas não deve perder a sua eficácia na comunicação estética. Mas sempre lembrando que o mais importante não é do que se fala, mas como se fala do que, ou seja, a forma prescinde do conteúdo, e o convívio com a poesia me ensinou a acreditar nisso.



Que novos ritmos, estilos e linguagens musicais a cultura musical de Porto Alegre e do RS integraram ou influenciaram no teu trabalho de compositor e músico?
O ritmo que mais me contagiou daqui foi o candombe. Mesmo sendo um ritmo oficialmente afro-uruguaio, considero daqui também, já que faz parte da cultura do Cone Sul. E foi aqui onde tive mais contato com esse ritmo forte e visceral, principalmente por intermédio do amigo Mimo Aires( músico percussionista de Porto Alegre), com quem compus Xaxandombe, a partir de uma brincadeira de misturar o xaxado do zabumba com os tambores do candombe. Também aqui em Porto Alegre, a convivência com o profissionalismo e a ótima qualidade dos músicos, me estimula muito a querer me aprimorar como músico e a criar novas parcerias.



Como é trabalhar com música aqui em Porto Alegre?
De uma maneira geral, é dificultoso fazer um trabalho autoral devido a um certo comodismo, saudosismo e desconfiança das pessoas diante de um trabalho não conhecido e/ou reconhecido pela crítica/mídia. Também existem poucos espaços para as várias tendências musicais, ocorre super concentração de investimentos, monopólio de uma minoria estética, enquanto a grande maioria de músicos, compositores de outras “escolas” ficam à margem, na surdina , muitas vezes sendo condenados a caírem na mesmice para poderem aparecer. E isto não é só um problema local, é nacional e acho que mundial. Realmente, “o pop não poupa ninguém”.



E o que fazer para mudar isso?
A forma de tentar mudar isso é por meio da "guerrilha cultural": unir-se a outros guerrilheiros, compositores, agitadores culturais, pessoas que se interessam por mudanças e estão empenhadas em invadir os veículos tanto alternativos, quanto os mais tradicionais. A internet e as rádios comunitárias são instrumentos muito importantes nessa luta. O movimento "música autoral" promovido por vocês do Vaia é louvável, mas precisa
avançar mais, invadir mais, criar focos em outros territórios, buscar novos aliados, assaltar o parlamento e derrubar o poderio dos latifundiários culturais. E também que não seja somente um “movimento de apoio aos músicos autorais de Porto Alegre”, mas que se torne um “movimento de apoio ao músico autoral”, de qualquer lugar do RS e, por que não?, do Brasil . A cultura precisa ser mais democratizada e sem fronteiras. UNI-VOS!!!!

Impressões de uma viagem ao Irã

de Ronaldo Cagiano
Após o convite do Iranian Literature Foundation para participar do I Seminário de Literatura Latino-americana, em Teerã e Isfahan, entre 26/5 e 1º/6/07, a primeira sensação foi de dúvida. Que motivos teriam para convocar escritores Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Cuba, Índia, México, Venezuela e Uruguai para discutir suas literaturas num país distante geográfica e culturalmente de nós e ao mesmo tempo vivendo momentos políticos difíceis e ameaças dos senhores donos do mundo globalizado?
Confesso que à dúvida seguiram-se o espanto e a apreensão, pois as notícias filtradas do Ocidente sempre nos deram conta de uma área de instabilidade permanente, com risco de toda ordem., além do inconsciente coletivo que aponta para a possibilidade de invasões, homens-bomba e outras instâncias de terror e medo.
Logo, esse sentimento foi dando lugar a outras expectativas, principalmente a de contato com um povo e um país de cultura e história milenares. E, medo por que, se maior insegurança vivemos por aqui, sujeitos a balas perdidas nas ruas do Rio e São Paulo e catástrofe maior não pode haver do que os escândalos, como verdadeiros mísseis imorais que caem todos os dias sobre nossas cabeças nesta Renânia habitada por delúbios, valdomiros, valérios, gautamas, zuleidos e outros sanguessugas.
Desfeitas as cismas e feitas as malas, para lá fomos, motivados também convocação da organizadora do Seminário, a hispanista Najmeh Shobeiri, que declinou a principal razão do evento: "a América Latina tem despertado interesse do mundo literário nas últimas três décadas, com respeitáveis trabalhos de ficção".
A chegada ao Aeroporto Internacional Aiatolá Khomeini, após uma escala em Paris, foi marcada pela cordialidade e simpatia das jovens universitárias, estudantes de literatura e tradutoras de espanhol. Ali já se revelava um País muito diferente daquele demonizado por alguns chefes de estado ocidentais, principalmente pelo que o governo americano costuma apresentar. Mulheres, que mesmo sob chador e véus, não conseguiam obscurecer sua beleza e sensualidade, receberam os convidados com buquês de rosas vermelhas e uma alegria espontânea, saudação que só nos foi possível retribuir com acenos de cabeça, já que abraços, apertos de mãos ou beijos são proibidos, fruto da rigidez de um código moral, que rege comportamentos e dita costumes, e que se aprofundou de maneira mais impositiva com a revolução islâmica e a ascensão do clero xiita ao poder em 1979.
A primeira visão de Teerã me permitiu uma leitura muito diversa daquela costumeiramente oferecida pelas lentes ocidentais e o meu espírito despojou-se lentamente dos pré-conceitos arraigados sobre este outro lado do mundo, captando uma cidade e um pouco do País que se expunham às minhas explorações visuais. Aos poucos, o que havia se impregnado em mim, ao longo de anos de assimilação pelas próprias lições apreendidas nos bancos escolares de Cataguases quanto na história recente contada e filtrada pela imprensa ocidental, cede espaço a outras percepções.
Nem as fantasias dos contos das mil e uma noites, nem o arcaico e o medieval das práticas políticas e religiosas que tantas vezes chegaram até nós pela ótica dos poderosos. Vejo um Irã que cultua o passado histórico e cultural sem qualquer prurido nostálgico, porque experimenta uma metamorfose em seus processos internos, que o ligam ao futuro, à modernidade, à tecnologia, à tentativa de uma relação simbiótica com seus valores e costumes e tantos milênios.
Esse encontro real, que me impediu a astúcia dos julgamentos que levei na bagagem, projetaram-me um país e um povo diferentes, apesar dos condicionamentos políticos e das convicções religiosas fundamenta na charia e no Alcorão.
Em nossa primeira saída em Teerã, encontros dos escritores latino-americanos com o velho mundo. No resto da semana, outra agenda repleta de contatos e passeios pela capital, conduzidos por guias turísticos, tradutores e representantes do governo, que nos apresentaram a uma metrópole que nada destoa das grandes cidades do mundo globalizado. Mas, somos lembrados de que estamos no Irã, em diversas ocasiões e lugares, diante de outdoors com estampas de Khomeini, Khamenei e outros aitatolás, com seu culto aos líderes espirituais, às autoridades civis e militares e aos mártires da guerra contra o Iraque, que na década de 80 ceifou cerca de oito milhões de vidas, numa alusão constante aos feitos do regime.
A imagem que sempre povoou nosso imaginário, e disseminada pela política do lado de cá, que insistiu na apresentação de um país exótico, impermeável e arcaico, governado por uma teocracia intolerante, de vocação belicosa e sufocado em suas vestimentas, cai por terra diante de visões distintas. Nota-se, sem maior esforço, a vida pulsar nas ruas apinhadas de gente e de carros, com um burburinho semelhante à de qualquer capital do primeiro mundo, com seus arranha-céus, condomínios, autopistas e uma periferia cuja pobreza tem uma dignidade não encontradas nos subúrbios das grandes cidades brasileiras.
Sim, há seus antagonismos, como em qualquer país. Por exemplo: bancos estrangeiros não são autorizados e a venda de bebida alcoólica é proibida. Em compensação, no País consomem-se as mesmas marcas de automóveis, refrigerantes, jeans, perfumes, cigarros, relógios, sapatos e novidades de qualquer lugar da Europa ou das Américas. Apesar das dissensões com os Estados Unidos, grande parte da população fala inglês, por opção ou obrigação curricular. E as denominações das praças, ruas, avenidas, mesquitas, edifícios públicos, museus, universidades, lojas, restaurantes, sinalização de trânsito urbano e das rodovias, originariamente escritas na língua farsi e caligrafia persa, é acompanhada da correspondente tradução em língua inglesa.
Cidade populosa, com cerca de 12 milhões de habitantes, a moderna Teerã sofre com os males da poluição, causada não pelas indústrias, que estão no centro-sul do País, mas pelo gás carbônico emitido pelo excesso de automóveis (explica-se: o preço do litro da gasolina corresponde a R$ 0,17). Em contraponto, cidade oferece o fascinante espetáculo dos picos nevados das montanhas Alborz, com a incidência dos raios de um sol tropical que saúda os visitantes oferecendo com uma plasticidade exuberante. Em outras regiões, vêem-se imponentes jardins e parques bem-dotados de estrutura e serviços, além de inúmeros monumentos, verdadeiros mausoléus em praça pública, dedicados a poetas, filósofos e reis da antiguidade, entre os quais Hafez, Rumi, Firdusi, Omar Khayyam, Sa’di, Avicena, Zoroastro, Ciro, Xerxes, Dario, Artaxerxes.
Na segunda etapa, a organização do evento levou-nos a Isfahan (que quer dizer “A metade do mundo”). Considerada a capital cultural do Irã, dista 400 Km de Teerã, conserva o charme e a opulência da arte seiscentista presente em cada esquina dessa que foi capital do Irã há mais de dois séculos e que hoje abriga uma usina nuclear, dor de cabeça para o imperialista Bush. Os autores apresentaram poemas e textos inéditos aos presentes e a alguns escritores locais, que testemunharam a dicção e a semântica de uma outra literatura até então intangível e diversa de seus padrões estéticos. Receptivos e interessados, lotaram o auditório do Hotel Kowsar, localizado abaixo das montanhas Solfé e às margens do rio Zuyandé, com suas pontes arcadas e tantas vezes centenárias, seus barcos a remo e suas casas de chá (chaykunés). No centro, espraia-se o grande mercado persa, seccionado por mesquitas e minaretes, que impressiona pela imponência e proeza de suas linhas arquitetônicas e a variedade de produtos e serviços que, nos corredores labirínticos e nas inúmeras saídas para ruelas vicinais ao grande bazar, dividem espaço com temperos, artesanato, tapetes, roupas e comidas.
Ao comentar com os colegas do Iran sobre a mítica Pasárgada imortalizada por Manuel Bandeira em seu poema, descobri que não se tratava de uma simples miragem utópica do grande poeta brasileiro. Ela está lá, em ruínas, no caminho de Persépolis, construída por Ciro para seu próprio deleite, cinco séculos a.C., crendo ser o ela centro do império Arquemínida, que ele fundou. No Irã, que foi a Pérsia até 1935 e sofreu a dominação árabe no século VII - revelou-me uma professora de literatura espanhola - a ficção é conhecida há pouco mais de sete décadas, mas seu povo reverencia a poesia, que vem de longa tradição oral, tanto quanto nós reverenciamos o futebol e o carnaval.
Nesta primeira visita ao Irã foi possível, com outros olhos, apreender um país desconhecido e ter uma visão nada parecida com as descrições costumeiras. Por exemplo, ficamos sabendo que não há hostilidades entre americanos e iranianos nem mesmo contra os judeus que vivem lá em suas colônias, indicando que há um discernimento entre o que é governo e o que é são os cidadãos. Os povos se entendem, mas os Estados não.
Muito mais rico e organizado que o Iraque, apesar da guerra que travou com seu vizinho, vem se recuperando e se impondo como potência regional. Herdeiro de uma cultura milenar e uma história inesgotável e instigante, vive suas contradições e experimenta um momento de metamorfose em sua história recente.
Esse contato que iranianos vêm mantendo com outras realidades culturais, sociais e econômicas a partir do desvelamento da literatura dos povos da América Latina é um sinal da necessidade desse intercâmbio simbiótico, de novas parcerias com estados não hegemônicos. A nova geração, nascida sob o impacto da revolução islâmica de vinte e oito anos atrás, é composta por 83% de alfabetizados, contra os menos de 48% que o xá Reza Pahlevi, expulso e humilhado, deixou como herança de seu período de dominação e alinhamento com os poderosos Ocidente. Com cerca 75 milhões de habitantes, 2 milhões de universitários, mais de 1500 bibliotecas e um cinema reconhecido internacionalmente, O Irã, certamente, não vai ficar onde está e tem razão para não abaixar a cabeça para os juízes do mundo globalizado que avançam contra os povos do terceiro mundo e os países em desenvolvimento. Esse povo reverencia a história, as tradições e a cultura, mas sem a melancolia do passado, pois está em busca de novos referenciais, novas utopias, outras possibilidades der relacionamento nos diversos campos.
O retorno dessa viagem ao Irã ressuscita em mim aquela mesma sensação que um dia permeou a visita de Aldous Huxley ao Brasil e que na sua jornada entre Ouro Preto e Brasília, provocou-lhe uma profunda inflexão: “Que dramática jornada através do tempo e da história! Uma jornada do ontem para o amanhã, do acabado para o que está por começar, das conquistas antigas às novas promessas". No entanto, ao deixar Persépolis, de tanta história e tradição, a sensação é de ter chegado a uma Farsápolis, terra não prometida, onde pululam escândalos e o poder nos causa ojeriza. E aí, mais do que no poema de Bandeira, dá vontade de gritar: “Vou-me embora pra Pasárgada”.