ÁGUAS SUBTERRÂNEAS

"E se eu te dissesse que esqueci desse mar aberto de dentro de mim? Que só olho pra fora, pras coisas? Que desaprendi irreversivelmente a gostar da solidão? Que eu não me basto? Que nadei pra terra, não quis mais me afogar? Que eu me viciei no auto-boicote, que eu não sei parar, nunca? Que eu só preciso de uma, veja bem, só uma grande idéia? E que talvez ela nem precise ser grande, mas que seja dessas que ninguém ainda teve, sabe? Eu quero uma idéia que ainda não é idéia, ainda não é nada.
E se eu te perguntasse por que meu mar fica cada vez maior toda vez que vejo essa gente? E por que quase todo mundo não passa de lago pequeno e cheio de lodo por dentro? Às vezes até por fora, olhando bem, consigo ver um pouco de lama em seus olhos. Eu vejo tanta lama no mundo.
E o que preenche um mar, sabe me dizer? O que vence a pressão e chega bem lá no fundo? Quem tem fôlego pra mergulhar assim? Pra onde é que foram os submarinos? Cadê as coisas à prova d’água? E as pessoas? Cadê a água? Só vejo o lodo saindo dos olhos e das garras.
E se eu te contasse que nada sei de rios, mares e lagos? Que o lodo é exterior, mas é o que mais compreendo? Que de compreender tanto tenho medo que se torne algo de mim? Que eu não sei o que fazer, vezenquando, com tanta água? Que às vezes quase mato afogado quem não pediu uma gota sequer? Que essa água me escapa, em muitas e muitas horas, e escorrega pelos olhos sem parar? Já transbordei tanto...
E se te confessasse que tenho este mar em mim desde sempre e ainda não aprendi a navegar?
"
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Mary Farias. Mais aqui http://a-loca.blogspot.com/

2 poemas de Paulo Henriques Britto




Não há nada lá fora?
Nem mesmo a idéia de um
lá-fora?


Não será possível,
ou sequer concebível,
o ir-embora?


Pode-se ficar dentro?
Não? Também não há um
cá-dentro?

Será ilusão
acreditar então
que saio e entro?

Perdão se sou existente
- perdão! quis dizer “insistente” -,
mas não há um lugar
onde se possa entrar,
mesmo que ausente?


***

Toda palavra já foi dita. Isso é
sabido. E há que ser dita outra vez.
E outra. E cada vez é outra. E a mesma.


Nenhum de nós vai reinventar a roda.
E no entanto cada um a re-
inventa, para si. E roda. E canta.

Chegamos muito tarde, e não provamos
o doce absinto e ópio dos começos.
E no entanto, chegada a nossa vez,

recomeçamos. Palavras tardias,
mas com vertiginosa lucidez -
o ácido saber de nossos dias.


Paulo Henriques Britto é tradutor e professor do Departamento de Letras na PUC-Rio. Traduziu, além de obras de ficção de vários autores, a poesia de Byron, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Allen Ginsberg e Ted Hughes. Publicou cinco livros de poesia — entre eles, Trovar claro (1997), Macau (2003) e Tarde (2007) — e um volume de contos, Paraísos artificiais (2004). Uma antologia de poemas seus foi lançada nos Estados Unidos, The clean shirt of it, com tradução e introdução de Idra Novey (2007).


ENTREVISTA: Etienne Blanchard

ettienne em primeiro plano

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Etienne, vamos começar falando sobre a sua trajetória de poeta até aqui. Tem livro (s) publicado (s) ou pronto pra ser publicado (s)? Publicou onde teus poemas, revistas, jornais, concursos, internet?
sim tenho 4 a carruagem branca 1997, corag- terres du dehors- caractères, paris, 2000- a serpente, calábria, 2002 e o último oficial, com os poets, lya luft, moacyr scliar, bel zielinski, donaldo schüller, etc paz , um vôo possível. fora folhas e páginas e livros não oficiais ... ganhei um prêmio no primeiro dado por nina de almeida, a mim e à atriz carmem silva. tenho um outro que já vendi um pouco páginas grampeadas - a serpente 2...


Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?
é mais esforço. o velho dito : p cada 1000 páginas q tu leias, escreva uma palavra.


Quais livros (poesia e/ou prosa) fizeram parte da tua formação?
bruce chatwin, baudelaire, st-perse, bandeira, drummond, pessoa, nicolas bouvier, anaís nin, florbela espanca, artaud , rimbaud, quintana, mário de sá carneiro, kosynski, bukowski, éluard, verlaine, os poetas do rock, dylan, dylan thomas, walt whitman, são tantos e tantas , eskeço muitos.


Teve/tem algum incentivador? Quem?
sim vários, direta ou indiretamente, minha mãe , irmã, tia, família, frank demmateïs com quem tenho um cd , eskeci de falar , com banda - estrada, la route tzigane, arb, 2000. armindo trevisan, nina de almeida, eduardo veras,fachinelli, o saudoso, a saudosa tânia carvalhal, etc etc. são TANTOS(AS) MAIS UMA VEZ.


Com o que se inspira para escrever? O que é matéria para a tua poesia?
O SOL, ALUA, as palavras, os livros, a música, o espírito, AS VIAGENS, etc.


Costuma começar pelo primeiro ou pelo último verso? Qual deles é o mais difícil? O que detona o poema?
o primeiro, às vezes vem tudo de uma vez, de tanto ler, vc tem um código para psicografar- como diria pessoa- anjos e demônios.


Há idéias ou imagens que te perseguem, que ficam grudadas no teu juiízo algum tempo?
sim, claro, mas tento anotar imediatamente. baudelaire falou 90% do gênio é botar uma idéia em prática IMEDIATAMENTE.


Qual é a tua relação com a cidade onde mora, porto alegre? No que isso influencia a tua poética e se manifesta no que tu escreves?
na serpente o livro -prosa- acaba num quarto, depois de uma meia volta ao mundo quase. porto alegre é um porto, de onde saem os navios da alma, por onde passam marinheiros(as) angélicos , seráficos, demoníacos também.


Como define a tua poesia? Como caracterizaria tuas principais ambições estéticas?
um poema que tivesse as imagens das musas de meus sonhos e que saciasse a fome e a sede & o saber & a ambição mesmo & os mistérios & a sede de desconhecido. a utopia.


Tu identificas uma geração literária hoje, ou um grupo de poetas brasileiros com projeto comum definido? E tu te vês fazendo parte de alguma geração literária?
geração acho q é mais uma coisa de data... não sei . gosto muito dos seres humanos. viviane juguero, juliana wexel, mário pirata, adriane mottola, minha irmã danielle, vc q tem um trabalho de poeta também... nélson fachinelli era demais mas já é outra geração. nina de almeida também então... quem t ama apesar de teus grandes defeitos, como disse um grande escritor q não lembro o nome.


Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na tua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores, da tua e de outras gerações?
sim de armindo trevisan indiretamente por escrito , de moacyr scliar por escrito, um cara muito legal em poa é o adido cultural francês ronan prigeant- pseudônimo emmanuel tugny. um cara que me incentivou muito e que morreu foi o filho de claudie a dona da livraria francesa de sampa. um outro cara demais é o tavinho paes, do rio e o joão luís de souza , espero não errar seu nome, do corujão poético do leblon , aliás idéia que temos que implantar aki, começa às 11 e vai até às 6 da matina regado a poesia, som e o que mais se quiser. em marajó, tem um poeta que corre todos os fins de tarde no meio da rua principal da cidadezinha, dá voltas, q é um cara muito legal também.


Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?
dali dizia : a crítica boa ou ruim não muda nada , vc tem q fazer e continuar fazendo até a morte seu trabalho de artista. mas a boa faz bem p o ego, a ruim é boa p melhorar o trabalho. no correio do povo antes existia o caderno de sábado. hoje acho q há pouco espaço no brasil, no mundo, tem que ter mais. mas há O VAIA !!!!


A crítica literária pode influenciar a produção poética de uma geração?
SIM CLARO devia existir mais como o antônio holfeldt no teatro , a bárbara heliodora, etc. o VAIA devia se tornar como a GRANTA de ny, etc.


Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?
tem um cara que é demais : o kenneth white, ele diz q o poeta/artista deve saber um pouco ou bastante de tudo ; entomologia, química, línguas, etc etc etc aliás ele é um dos escritores favoritos meus , disparado, e um dos que mais me influencia, humildememte.


Como leitor de poesia o que tu achas que de mais importante um poeta tem que expressar em sua poesia?
a beleza, a energia, o amor, o conhecimento, a solidariedade, a abertura de espírito. open your mind and your ass will follow. seu quadril. a força de tudo vem do quadril e da kundalini. tantra yoga.


Qual a relação entre a poesia e técnica? Basta dominar certas técnicas para ser poeta?
ler, ler e ler. como diz lobo antunes, etc.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?
claro . tenho certeza que sim , entre as pessoa de classe independente da classe. MUITÍSSIMO.


Qual a função social da poesia? quebrar as barreiras sociais linnguísticas e a repressão.
Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita melhor a poesia?
por enquanto acho , que a que fundaremos, senão a age é muito legal. um abraço para todos de lá.


Já participou ou pensa em participar de oficina de poesia? Como ela foi/será?
sim, gostaria, mas muito também da de prosa do assis brasil.


Alguma epígrafe que te acompanha sempre?
solvitur ambulando- se resolve caminhando, viajando- navigare necesse est , vivere non necessere- não sei se tá certo, navegar é preciso viver não é preciso.


O que pensa sobre o jornal Vaia?
DEMAIS! sem comentários. pode ser nacional, mundial , cósmico, interplanetário. pode ter uma editora e uma tv uma produtora de cinema !


Repito uma pergunta que a Clarice Lispector sempre fazia aos seus entrevistados: o que é mais importante na vida pra ti?
o amor em todas suas formas, não existem noramas, só se forem alguams como a benguell.- p quem graças a deus já dei esse poema pessoalmente. a beleza também. o prazer. a felicidade. o saber é demais. o conhecimento. a LIBERDADE.


E porque você escreve?
para comunicar. para dizer tudo que não consigo dizer oralmente. para gravar em pedra o que existe na superfície e na profundidade do ser.
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Mais Etienne Blanchard aqui:
eti457.multiply.com

MAIS UM


Faz as malas e vem embora, querido dos olhos brilhantes. Não temos o que temer, os prédios e o asfalto não vão contra nós. A gente faz a felicidade a dois ser pra sempre até que nunca acabe. Eu só quero um pouco de você todo dia, o dia inteiro. Quero pensar em você sem motivo. Quero lembrar do carinho de ontem a noite como quem lembra do recado dado.

Faz a janta e senta na janela, meu amor. Eu quero um pouco de você em cima da pia mesmo que tudo se quebre. Sua mão no meu cabelo. As minhas mãos perdidas das tuas costas, rasgando. Vou tomar todo o seu cheiro pra mim pra poder fechar os olhos durante o dia dentro do carro e lembrar de você sem conseguir esquecer. Quero ficar satisfeita de você.

Deita na cama e me conta um segredo, meu bem. Conta ao meu corpo tudo que você nunca disse. E depois esquece. Fecha os olhos e me deixa cuidar do teu sono, dos teus olhos, enquanto faço as malas e vou embora.

Muriel Goldoni, publicitária, talvez escritora um dia. Mais em
murielgoldoni.blogspot.com

DUAS NOTAS

  • Faz tempo que estamos para falar aqui do Histórias Possíveis. É uma revista literária virtual de periodicidade semanal, na qual publicam diversos autores contemporâneos. E já está na quarta edição. Veja que belo time de ficcionistas:
    ANDRÉ DE LEONES - DANIELA DOS SANTOS - DANIELA MENDES - DHEYNE DE SOUZA - HENRIQUE RODRIGUES - LEANDRO RESENDE - LÚCIA BETTENCOURT - MAIRA PARULA - MARCELO MOUTINHO - MARCO AURÉLIO CREMASCO - MAURÍCIO MELO JÚNIOR - NEREU AFONSO DA SILVA - PRISCA AGUSTONI - ROBERTO AMARAL - RONIZE ALINE - SUSANA FUENTES - WESLEY PERES.
    Para saber mais escreva para
    historiaspossiveis@gmail.com. Ou se chegue por aqui.
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  • E também do belo trabalho que está fazendo o Marcelinho Spalding e companhia. Marcelinho está propondo uma grande parceria com os artistas gaúchos. Olhe, confira!

DUAS VOZES

Com o objetivo de divulgar e debater a produção musical e literária brasileira contemporânea a livraria Nova Roma, em parceria com o jornal Vaia, promove, mensalmente, o encontro de dois artistas (um músico/compositor e um escritor) para conversa, leituras de textos literários e pocket show.
O programa cultural Duas vozes – música e literatura pretende criar um espaço eclético para discussão de idéias, de todos os gêneros, grupos sociais e artísticos, tendo como linguagens a música e a literatura, além de tornar possível discutir e informar, colocando o público em contato direto com os artistas convidados para uma conversa descontraída e informal.
O evento tem duração de aproximadamente uma hora e meia e está dividido em três etapas: comentários sobre a obra dos convidados e breve entrevista; leituras e comentários dos artistas sobre seus trabalhos e participação do público e pocket show com o músico/compositor convidado.
No primeiro encontro – ocorrido em 29/09 - participaram o poeta e jornalista Nei Duclós e o escritor, compositor e músico Cláudio Levitan.
Na segunda edição - dia 27/10, sábado, às 1730hs – os convidados foram a cantora e compositora Monica Tomasi e o escritor e jornalista Luiz Horácio.
Em dezembro – dia 01/12, às 18hs – participaram do evento o músico e compositor Nelson Coelho de Castro e o escritor Luis Augusto Fischer.
A quarta edição do evento – marcada para o dia 15/12, sábado, às 18hs - terá como convidados o violonista e compositor Felipe Azevedo e o poeta Marco de Menezes.
A livraria Nova Roma está localizada na rua Gen.Câmara, 394 (telefone 30134535). A entrada é grátis.

Conto de Pedro Salgueiro




Fronteira



O VASTO HORIZONTE MIRADO COM ANGÚSTIA: PRIMEIRO as sobrancelhas cerradas, a mão em pala; depois os óculos claros, vislumbrando ínfimos detalhes; mais além o binóculo rápido; e por fim a luneta de tripé apoiada no peitoril da janela. (A porta da frente travada, os galhos ressequidos sobre o muro.)
Em cima da mesa, o antigo manual de técnicas de fuga, de caminhos alternativos, de atalhos perfeitos. Aos seus pés a gasta bússola, mapas encardidos e rabiscados nos trópicos. A xícara de café esquecida; a bagana de cigarro inútil nas cinzas. (Quanto mais longe... — o país distante, um mundo imaginário, paisagens de televisão.)
Os olhos peritos não enxergam mais os pés sujos, as unhas compridas, o filete de baba maculando o colarinho, as baratas no canto escuro do quarto. No quintal o verde úmido dos musgos, o tronco seco da goiabeira, os cacos de telhas trocadas no último inverno.
Rangendo leve, a cadeira de balanço da companheira triste, também esquecida dos filhos distantes, a esperar eternamente pelo retorno das andorinhas, o cantar dos galos nos quintais vizinhos, rezando uma prece em silêncio, no mais absoluto silêncio...
Por último, cavou trincheiras no jardim e montou observatório no galho mais alto da ingazeira do quintal. Canto algum ficou descoberto de um possível ataque. Testou todos os alarmes, checou lunetas e binóculos, lustrou a velha espingarda. E nem se deu conta de que o adversário, zeloso de seus cuidados, se infiltrara há muito em sua guarda, já organizava junto com ele as mil situações de defesa, sussurrando em seu ouvido opiniões absurdas, desfocando lentes, cuspindo debochado no assoalho da sala enquanto ganhava a confiança de sua companhia. (Se não olhasse para tão longe já o teria visto, de sorriso maroto, destampando as panelas no fogão.)

--- Pedro Salgueiro nasceu no Ceará (Tamboril, 1964). Publicou O Peso do Morto (1995), O Espantalho (1996), Brincar com Armas (2000), Dos Valores do Inimigo (2005) e Inimigos (2007), de contos; além de Fortaleza Voadora (2007), de crônicas. Recebeu o “Prêmio de Contos da Biblioteca Nacional para obras em curso” e o “Prêmio da União Latina/Concurso Guimarães Rosa de Literatura”, dentre outros. Tem contos em suplementos literários, sites na internet, revistas e antologias (Geração 90, Os Menores Contos Brasileiros do Século, Quartas Histórias, etc.). Algumas faculdades (História, Pedagogia e Agronomia), diversos prêmios literários, um emprego público vitalício e outras inutilidades afins. Dentre várias atividades: desbravador de abismos, perquiridor de caminhos e descobridor de atalhos.
Conto do livro Inimigos (Rio de Janeiro: Ed. 7Letras, 2007).

EXTRA, EXTRA, EXTRA!

Aldir Blanc está de volta. Agora na blogosfera. Entre!

ENTREVISTA COM MARCUS MINUZZI


“Nosso lado maloqueiro nos redime”



Marcus, vamos começar falando sobre a tua trajetória de poeta até aqui. Tem livro (s) publicado (s) ou pronto pra ser publicado (s)? Publicou onde teus poemas, revistas, jornais, concursos, internet?
Tenho um livro prontamente organizado, total, totalizado, escrito de um fôlego só, ainda não publicado, não sei bem porque, não sei se não corro atrás direito duma editora, se se pega esse negócio à unha, ou se é porque não tenho dinheiro para pagar uma edição, dessas, que vendem pra poeta novato. É um livro que veio até mim navegando, intitulado “Vosso Gozo: o beijo de moça governará o povo”, e de já falar muito nele, como inédito, venho ficando até enjoado. É preciso criar algo novo. Depois desse livro, que escrevi entre janeiro e março de 2007, são 59 poemas, viu, como dobres de sinos, me converti no que chamei de “Poeta Arteiro”, uma versão manhosa e arteira, de criança para criança, do próprio vosso gozo. Tentei fazer algumas apresentações na cidade onde moro atualmente, Novo Hamburgo, em escolas, mas é duro o caminho das pedras. O poeta só gozando que não morre. Meu poeta arteiro é um negro louco, que faz que não é louco, caso contrário as crianças ficariam assustadas. Até hoje, em uma das poucas escolas que me apresentei, sei que as crianças permanecem cantando um hit que inventei, numa sacada de pandeiro, pandeiro-pandeirinho, básico, e que fala assim: “O poeta alimenta o boi, pa-ra-ra-pum-poi, pa-ra-ra-pum-poi”. Quanto mais vale: vintém ou sorriso de criança? Também faço um nordestino louco, com chapéu de lixo e tranças ouvintes, uma coisa que eu criei, pra público adulto, que é pra assustar mesmo. Eu sou esse boi vadio. Mas não tenho tido como aparecer em Porto Alegre, já que são sete reais o total dos meus custos com transporte desde Novo Hamburgo, e não consigo muito esse dinheiro todo dia. Esse nordestino é matreiro, ainda está nascendo dentro de mim. Sou eu o livro dele. Antes disso tudo, escrevi um monte de coisas desde que estive em Portugal e criei um umbral, meu blogue, chamado “A Luz do Abacate”. Ali, conheci o martírio pessoano. Ser um louco-Pessoa pode vir sendo o meu sonho. Algo tipo índio-caboclo, sem pés-nem-mãos, ou melhor, os pés e mãos mexendo tempo o todo, de modo que as crianças lá em casa olhem pra mim e fiquem dizendo: o paêndoidô, o paêndoidô. Uma vida, duas graças. Na luz do abacate, tenho “O Rosa do Abacate”, meu primeiro livro parido a partir do recorte preciso lisboano. Uma vaca me pariu. Apresentei no Fumproarte, pra financiar a publicação, deu errado. Levei três pareceres contra – nos óio. Mesmo assim, venho andando ereto. Por fim, cumpriria avisar o leitor que esta resposta aqui foi redigida direto no computador, onde quem baixa é um santo meio eletro-desengonçado, sempre matreiro, é claro. Quase todo o restante da entrevista foi respondida na ponta da caneta. E tinta fina é outra coisa. Cê perceberá a diferença. Algo incrível. Ou não.

Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?
O poeta autêntico escreve com o próprio sangue. O poeta crucificado é uma imagem que me atrai. A morte gera a poesia boa. O poeta anda nu e aceita as pedras que lhe são atiradas. A poesia, da maneira como a entendo, é algo muito grave e fundo. No começo está o poeta, no habitat original, onde dor e prazer se fundem. Por isso, não há ópio que salve o poeta. Além do Cristo, trato sem meias palavras do negro brasileiro em meus textos. O sacrifício precisa ser transformado em mito. Falo num poema:
“Negro escuro-queimado, fogo de labareda. (...) Fostes crucificado,/ nego escuro do mato.”
O poeta é negro no sentido oleoso da negritude. Óleo combustível gerador de energia e também lubrificante. O coito padeceu por séculos da interdição católica. No Brasil, o combustível negro permite ócio e sexo farto ao branco. O coito torna-se algo possível de se fazer sem culpa, já que os negros eram considerados sem alma. Sem saber, o branco torna-se cativo dessa brandura. O povo nasce em meio ao gozo e cultiva então a alegria como característica nacional. O poeta, apesar de ter consciência plena da morte, precisa ser capaz de gozar do mesmo modo que esse modelo de brasileiro sem culpa. O amor acende o coração do poeta. O andrajo é função do poeta, o rumo ancestral convoca o poeta à navegação abissal. Amar o perigo disso tudo reflete o inconsciente mítico. Nada é puramente dado pronto, natural. E nada é puramente inventado, criação humana. A humanidade descobre em si o poético, ao mesmo tempo em que consegue infinitamente recriá-lo. O país homérico é ao mesmo tempo uma descoberta e uma potência de recriação. Descobri-me brasileiro e o Brasil desdobra-se em inúmeras possibilidades.

Quais livros (poesia e/ou prosa) fizeram parte da tua formação?
Não leio muito, porque leio pouco, ou melhor, leio pouco porque sou boi lento, vagaroso. Acho que Mensagem (Fernando Pessoa); Grande Sertão : Veredas (Guimarães Rosa), que ainda não terminei de ler; O Jogo da Amarelinha (Julio Cortazar).


Teve/tem algum incentivador? Quem?
A ausência de meus pais, talvez, numa espécie de incentivo negativo.

Com o que te inspiras para escrever? O que é matéria para a tua poesia?
Inspiro-me com a fome e o desejo, que trilham o caminho de fuga da morte. Paradoxalmente, o medo libera instintos sígnicos poderosos. A necessidade é o grande mote da criação. O negro presente em meus poemas pode ser visto assim: o rei homérico ancestral reduzindo à penúria da escravidão. O erro é outra matéria-prima essencial. O erro matrimonial entre homem e mulher. O medo de amar contém a razão deste erro básico. O sonho inventa o real. O sono seria a chave para novas núpcias. O céu mitológico brasileiro, com seu reino de possibilidades sonoras, contém poemas já prontos, mas que urgem ser montados. O meu sonho é com amas do lavro e da curra, que exploram o poeta como a um escravo. Há um dicionário ardente prevendo a des-ferocização do masculino. A linguagem é o local do nascimento de anjos-menino, como Diadorim, em João Guimarães Rosa.


Costuma começar pelo primeiro ou pelo último verso? Qual deles é o mais difícil? O que detona o poema?
O amor anoitecido. Há sempre um orgasmo sonoro, fruto desse amor, que dorme e sonha. O poema é resultado de um noivado em ondas de guerras aventureiras. Escrever nos prospecta em uma fundura ancestral. Muitas vezes, o poema é o arco fundante nos atirando em direção ao futuro. O mito ovariano vem sendo meu principal poema. O guerrear sertanejo, de mulheres-musa, é que ergue este mito, como a uma tenda no deserto. Amos de livros: é isto o que os poetas são. Cavam feito condenados.


Há idéias ou imagens que te perseguem, que ficam grudadas no teu juízo algum tempo?
Leio o negro atávico, aborígine homérico. O leito de um rio rumoroso é que me recolhe, tornando-me um navegador. Na verdade, o negro é o próprio rio. Sou possuído por essa intenção benfazeja de negrificar o mundo. Outra imagem permanente é o maio transcendente, o gosto querido de um curral materno, perpetrado por um mito celestial novo: a Negra Ama Jesus – figura que corrói docemente o princípio feroz da masculina curra.


Qual é a tua relação com a cidade onde mora, porto alegre? No que isso influencia a tua poética e se manifesta no que tu escreves?
Nasci em Porto Alegre, moro atualmente em Novo Hamburgo. Amo Porto Alegre, cidade de navegação mítica peculiar. Nei Lisboa toldou meu lirismo – o melhor cantor-poeta da cidade. Toda cidade canta-se. Preocupam-me os espelhos. O norte espera do Rio Grande do Sul o mito do bravo defensor fronteiriço. Aqui, não é possível ser fraco. O negro aqui alia sua brandura à fera antiga, do divisor entre Espanha e Portugal. A coroa representada pelo português falado no Rio Grande do Sul acende uma literatura rica em mitos. Porto Alegre acode o coroamento lingüístico de todo o Estado. No meu livro, “Vosso gozo: o beijo de moça governará o povo”, procuro ouvir o murmúrio desejante do povo escuro e discriminado pelo porvir. O barco da cidade é conduzido pelo sacrifício negro, matizado pelo gaúcho pobre, a china pobre e neguinha. O baixo meretrício da cidade é revelador de seu povo. O gato negro, bandido, aqui dá origem a bandas de blues.


Como define a tua poesia? Como caracterizaria tuas principais ambições estéticas?
O negro arde miraculoso. Ouço o sono. A senda conhece o sono. O lampo artístico, a luz que conhece, na concha quente de um orgasmo. Sou, nessas horas, um orgasmo. O seio ardente é inspirador de quadros e bibliotecas. Sexo é a base do onirismo humano e, portanto, do poeta. A serpente vista nos olhos. O maio é o mês da nupcialidade, que no Brasil torna-se uma nupcialidade violenta, mas brejeira. O branco curra índias e negras, cativo desta sensualidade. O Brasil é o poema resultante desta situação. O que busco esteticamente é adoçar os sobrados. As donzelas ficarão negras e assim prenderão seus maridos em casa. Eu orno, ao mesmo tempo, a nossa boca do lixo.


Tu identificas uma geração literária hoje, ou um grupo de poetas brasileiros com projeto comum definido? E tu te vês fazendo parte de alguma geração literária?
Escrevo num poema:
O maio anuncia o comprido arco/ sob o qual cruzam as poetisas
Há negros em toda literatura brasileira, num sentido amplo. A negra aparece menos escrevendo e mais sendo escrita. O gesto moleque de Caetano Veloso, ao perguntar “eu sou neguinha?” é revelador do uso da negra, no Brasil, pelos brancos. A neguinha brinca com o rapaz branco e nunca dele se torna cativo. A música brasileira é obra de homens e brancos, cativos da negra. Faço este corte transgeracional. A pata do baiano é mista, no entanto. É húmus atávico. Caetano é o maior divisor de águas entre um Brasil macho, cantador e viril, e outro, mais consciente da importância da sua própria feminilidade. O maio representa o noivo menos mal-educado. Entendo-me como desta geração.

Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na tua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores, da tua e de outras gerações?
“O Mario Pirata é meu sonho”, certa vez escrevi. O Mario também é transgeracional. Conversei com ele uma única vez, como quem ouve conselhos. É dura a vida do poeta navegador. A guerra mítica é ancestral e poderosa. Os poetas sonham em receber o coroamento, seja o de um beijo ardoroso, vindo do público, seja o de um abraço fraterno entre pares. A musa não esconde-se, nem foge; quem a procura, acha. O poeta se faz sozinho, como exigência da própria musa. A humildade absoluta não existe. O passado nos vincula. O meu amigo Sidnei Schneider, poeta dos lindos, me felicitou com uma ótima crítica dos meus poemas em seu blogue. Sou seu amigo porque a crítica é boa ou a crítica foi boa porque sou seu amigo? A arte é o mito querendo avançar em suas funções reprodutivas. A arte é uma frente de batalha. Poetas bem-educados cumprimentam-se antes de começarem a sempre bondosa luta pelo amor à Deusa, que no fundo quer bem igual a todos. Ouvi de Mario Pirata o profético conselho de que o artista precisa recuperar a inocência perdida na infância. O “brincadeiro” é uma feliz idéia de Mario, que eu próprio venho tentando recriar, juntando-a ao mito da Negra. Mario é o que mais baliza meu sonho de viver como poeta nesta Porto Alegre pouco infiltrada por uma ludicidade que tem seu porto seguro no Nordeste brasileiro. Tomei-o como referência e acredito ter pedido licença para tanto.

Quanto tempo dedica à leitura de crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica? E a crítica literária pode influenciar a produção poética de uma geração?
O ciúme é a raiz da crítica, mitologicamente falando. Ele, o ciúme, margeia tudo. Há anos que não leio crítica. O crítico que não compreende esta natureza da crítica castra novos talentos. O crítico competente alia paixão e sinceridade em torno de si. Estes cativam, mesmo destruindo.

Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles falam várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?
A poesia é auto-suficiente. O corpo como base do signo alimenta-se da realidade externa da qual faz parte a cultura letrada, como herança forjada a ferro, no caso do chamado cânone ocidental. A guerra acontece aliançada com a inocência. O arcabouço teórico aumenta a ferocidade inerente à celebração das arcadas às quais pertencemos. A escuridão de não pertencer aumenta mais ainda este aguerrimento. Sou um titulado na academia (doutor em Ciências da Comunicação). Acho bom isso. Me dá orgulho e esperança. Mas sou cozido em panela de barro. Óleo gostoso banha meu lombo. Fogo brando. A vergonha de querer a mãe eu perdi. O negro amalucado que posso ser me dá o domínio do charco. O ovariano é um chão cansado de sofrimento. Todo cânone ocidental é fálico. O cânone do preto obscuro é se dar mal. O negro merece ser estudado. Mais do que isso, ele precisa ensinar o Brasil a formular seu próprio cânone.


Como leitor de poesia o que tu achas que de mais importante um poeta tem que expressar em sua poesia?
A criança inocente e a nudez original.

Qual a relação entre a poesia e técnica? Basta dominar certas técnicas para ser poeta?
O fogo da luta forja a técnica. Olho meu olho poético aureolado. O mito é um cipoal pedregoso. O sertanejo tem uma pedra na fala, segundo João Cabral de Melo Neto. O sacrifício pessoano rendeu-nos o monumento de tudo o que ele, Fernando Pessoa, e seus heterônimos, escreveram. A alma é boa, apesar das penas. Álvaro de Campos, no “Opiário”, proclama: “basta de comédias na minh’alma!”. O sertão é o nosso mar. O gozo brasileiro é o maior recurso técnico a ser engendrado. O malho da palavra é, nas palavras de Caetano, “prensa, esperança, sofrer prazeria, promessa, poesia, Mabel”. A promessa nossa de poesia é a Negra, enquanto mito. Menos dor, mais prazer. O gozo na dor abre o poeta recluso de cada um, que, justamente por ser poeta, sabe recriar os artifícios simbólicos que usamos desde Homero.


A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?
Ser poeta é nobre. A nobreza se recria em nosso tempo, mantendo um traço imemorial: o ouro brilha mais em meio ao lixo. Divino é o palhaço; quanto mais ingênuo, melhor. Divina é a televisão brasileira; quanto mais aberta, média e “burra”, melhor. Divino é o desdentado do último grotão sertanejo. O nosso lado maloqueiro nos redime. Os olhos de boi de Guimarães Rosa sabem entronizar a jagunçada. Não há cultura sem poesia – este é o ponto – porque é a poesia que faz a cultura. Coser lábios de rã é calar o brejo e erguer principados. A luz do pirilampo, no brejo, acende o arco da travessia. Hoje, ser rei é muito mais fácil, justamente devido à dessacralização dos mandatos. Ser plebeu é que é nobre.


Qual a função social da poesia?
A poesia sonha a nós todos.


Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita melhor a poesia?
Olha, um tanto desaforadamente: a melhor será a que publicar primeiro o meu livro “Vosso gozo: o beijo de moça governará o povo”. As outras todas são péssimas.


Já participou ou pensa em participar de oficina de poesia? Como ela foi/será?
Nunca participei. Tenho o lombo sovado. Talvez nunca mais me matricule em escola alguma (levei um pau no doutorado, estou atarrachado até agora). Talvez me matricule só nas escolas imemoriais, que virtualmente não existem, mas que são percebidas em conchas obscuras, como no fundo do âmbito de um cocô de vaca. Não é uma piada. O estrume guarda segredos.


Alguma epígrafe que te acompanha sempre?
Acho que sou muito auto-centrado pra andar usando epígrafes. Nunca fiz isso. Eu diria um verso meu, pra quem quiser usar de epígrafe, ou ímã de geladeira: “Seja uma negra do ócio”. Nisso, existem umas duas ou três variações, como: “Seja uma ama do lavro”; ou: “Descubra o que é ser um negro da bosta”. Não. Acho que esta última destoa um pouco, pelo menos do meu espírito. Eu não a usaria. Mas é uma frase boa de ser dita.


O que pensa sobre o jornal Vaia?
Fica estranha esta pergunta vir logo depois de eu falar em “bosta”. Uma espécie de oásis é o Vaia. O fato de existir o Vaia está me viabilizando como poeta. “Cê (Vaia) parece um anjo, só que não tem asas iaiá.” Cito Maskavo, uma coisa mais pop, pra misturar bem as coisas. O arco é orientado sempre na direção certa. O poema sempre será bom.


Repito uma pergunta que a Clarice Lispector sempre fazia aos seus entrevistados: o que é mais importante na vida pra ti?
O gozo eterno, a boa morte.

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Dois poemas de Marcus Minuzzi


Homenagem a Chico Buarque das Sereias de Holanda


Com três pedras na mão, morto de inveja, me atrevi a perguntar a um oráculo que tenho porque Chico Buarque de Holanda é imortal. Minha pressuposição acerca dessa imortalidade refletia a idéia de que Chico encontra-se largamente embutido no imaginário coletivo, especialmente o das mulheres. Chico é um pai? Minha hipótese é de que Chico recorta e traz, com mãos de poeta, a violência dos tempos, que se abate com maior contundência – ninguém há de duvidar disso – sobre as mulheres. Ouvi Renata Maria, do último disco, e estarreci-me. Onde está o poeta Chico? Ele ainda vê sereias no Rio de Janeiro – proposta de paz. Creio que aquele oráculo me apontou algo que não sabemos. Que uma breve brisa sopra de um antigo cais (referência: Ode Marítima, Fernando Pessoa). Ali, os homens estão, e é contra o vento. Ontem, morri ao saber desse segredo.


Quando nasci,

Um anjo torto

Desses, etcétera.


Recebi teu beijo.

Depois, vieram procurar-me:


- Marcus, queres ser o rei dos másculos?


Tudo é divino e oculto.

Vieram ter segredos.

Ócio interpretativo.

Botei óculos.

O segredo da arte está nos beijos que recebes.

Os tormentos.

Há belos tormentos pictografados.

A arte, elementos do cérebro.

Eu nasci amaldiçoado, com o cu nas calças.

Danação.

Fico cá, esperando as mulheres, anjos em pele de leão.

Vaginas lavam o teu anseio.

Ficar esperando.

Quando eu nasci, um anjo desses torto,

E eu disse:


- É foda, Carlos.


Ângelos galhados,

Com açoites

E os pintos, pictógrafos.

A mulher me bate, com o seu anseio,

Ali onde esconde-se um pai.

Eu gosto de sexo asseado.

Asseio: a perfeita acareação.

Ouço nossos sambas, reis, novelas.

O Brasil é uma estrela lusitana, a mais bela, portentosa.

De cinco mulheres que eu conheço,

15 revelam seus segredos,

Destrambelham seus canonosos pais,

Colocam-se diante da pia,

Põe-se a lavar ovos,

Quando Chico canta,

Um pouco sujo,

Mesmo perneta.

Supremus.

Supremus.

Chico Buarque de Holanda.

Algumas coisas se fizeram aqui neste quintal,

Ao som de seu magnífico atabaque.

A mulher é sangue.

Tenho vergonha das minhas pernas.

Estrangeiro, sou um estrangeiro num país de pernas pretas

E escolas de samba.

A mulher diz:


- Amo Chico Buarque.


Ela não sabe que ao amar Chico,

Ama uma indecência.

A escravatura brasileira escrita

Sobre a base de um rito de escrever as negras.

Nossa cultura.

Grandes florestas da Ameríndia.

A coroação portuguesa.

A América escrita em espanhol.

Um sotaque de autoridade.

A intensa vaidade.

O que

é Chico Buarque?

Uma negra comida por trás:


- A indecência nacional transmutada em beleza.


A glória, as glórias nunca serão estanques.

O ponto crítico que é o Rio de Janeiro,

Esta estranha alegoria.

Buarque.

Pertenço aos de Holanda.

“Tanto horror e iniqüidade” e putaria.

Fria, a filha do senhor dono de negros

É fria.



- Hoje, a pátria tem bunda.


Morenas pias,

Saborosas,

Como frutas melequentas.

Estrela fria, te orienta.

Hoje, o sabor de alforria organiza o movimento.



- Brasil, eu amo tuas filhas!



Batismos de fogo e tristezas.

Meu padroeiro de braços abertos

Sobre o Rio de Janeiro.

Salvações crísticas.

Ninguém tem certeza com Maria.

O gado está bento.

Ave, a filha que o sol queimou,

Que me dá seus peitos.

Subcristianismo tropical.


- Queremos,

Porque queremos,

O charme,

O sossego

Desse Deus grego

De olhos vítreos.

Deus, salve as Marias

Todas filhas de Francisco.

Água nos olhos,

Sal na boca.

A escrita sônica.

As sereias.

A verde saudade

Por águas tão fundas.


***



A costa brasileira


Costa
Úmida.

No brejo,
Lambança
Na
Barriga.
Alho
Sobre
Grotas
Noivas
De
Aparecida.
O nível
Do
São Francisco
Onde
O grego
Entoou-se
Em boa
Ômega.
O remanso
Do
Gado,
A breguice
Sertaneja.
É
Negro
O
Corpo
D’água,
É birita
Esta
Bruta.
Ô cachaça
Em corpo
Desengonçado.
Ô gosto
Heróico.
A corja
Arriba
A saia
Da
Moça.
Ô fuligem
Atípica.
A costa
Brasileira
Balançou
Esparta.
Gerou
O Homero
Retinto.
Os sambas
Lembram
O nome
Certo
Das coisas,
Codinome
De
Corte
Condimentado,
Cabeça
Sonsa
Dourada.
Os
Anos
Evolucionais,
A senzala
Pura,
Os
Mantos
Gordurosos
De
Comida
E energia
Negras.

2 POEMAS DE AUGUSTO FRANKE BIER



DESPEDAÇADO

Não sei se sinto mais
A falta dela
Ou dos pedaços meus
Que ela carrega


ANDARILHO

Eu sou
Meu próprio caminho
Vou por aí
Sem GPS
O mapa é borrado
A bússola quebrada
O azimute errado
Ainda assim
Eu não consigo achar graça
Quando me dou por achado

3 Contos

A MÁQUINA DO DR. K.
Desde o início, soube que usaria a máquina. De nada adiantou protelar sua decisão. Isso apenas permitiu a colaboração indireta da esposa, que o rejeitou na cama e pela manhã saiu sem aviso. Sua imaginação fez o resto. Essa gota de oceano o empurrou mais cedo para a máquina. Num fim de tarde nublado, dirigiu-se ao prédio decadente e sondou a existência do obscuro Dr. K., o inventor e primeiro explorador do inconcebível artefato.
A partir de então só pensou na máquina e nas vantagens asseguradas: novo rosto, novo corpo, outra personalidade. E com isso outra vida. Todavia, era preciso não se iludir: a transformação tornava as pessoas apenas outras pessoas, mas em tudo iguais a quaisquer outras. Os hábitos, embora novos, continuavam os mesmos, coerentes com a espécie. A transformação obedecia, por um lado, ao gosto do usuário e, por outro, a uma fórmula já consagrada pela própria vida. Foram estes, em suma, os prós e os contras expostos pelo Dr. K. A última condição era: uma vez transformada, a pessoa não podia voltar atrás e, por conseguinte, só poderia se submeter a uma nova transformação oito anos depois. Tal exigência não era de natureza contratual, mas fisiológica, uma limitação do corpo humano...
Nos dias que se seguiram, organizou-se como se fosse partir em viagem de férias. Despedia-se, era evidente. A esposa se surpreendeu. Ele consertou todos os eletrodomésticos parados havia meses e, sem nunca ter manuseado antes um pincel, retocou as paredes manchadas pelo desespero de ambos. Também poliu os móveis e saiu em busca de novos suportes para as cortinas dos banheiros. Os reparos em sua vida íntima não foram poucos: passou a acordar mais cedo e convidar a esposa para caminhar, e a ir com ela às compras, quase interessado ou pelo menos em silêncio, a observar sua destreza em escolher e avaliar os produtos, respeitando sua natureza retraída e cautelosa. Fatos assim, se recorrentes, dispensariam a máquina...
No trabalho, livrou-se diligentemente de todas as pendências. Desengavetou antigos projetos e, atualizando-os, deu-lhes nova forma, redação mais precisa, livre de ambigüidades. Em duas semanas, o chefe o congratulou pelo entusiasmo dos últimos dias. Naquela tarde, saíram e se conheceram melhor. Quase se tornaram amigos. E marcaram uma pescaria, à qual levariam, ele a esposa, e o chefe a jovem namorada. Estavam bêbados e, por isso mesmo, mais íntimos, sem reservas. Chegou tarde em casa, mas ainda assim a esposa o esperava, afável e excitada. Prolongaram-se na cama, rindo e conversando. Depois lancharam e voltaram a se amar. O sol subia no horizonte quando afinal adormeceram, esquecidos dos sombrios temores dos últimos meses.
O segundo encontro com o Dr. K. aconteceu, apesar da felicidade que agora o contemplava. Com a esposa, era como se tivessem voltado aos primeiros dias. Transformada, ela por muito pouco não retomara aquela fisionomia inicial, que lhe tirava o sono. Mesmo assim, não mudou de idéia. Seguia por trilhos sem volta. O Dr. K. o obrigou a preencher uma enorme papelada e em seguida, tendo chamado sua jovem assistente, o introduziu na sala onde estava a máquina, uma alta cápsula metálica, de superfície uniformemente lisa, com duas imperceptíveis portas, uma de cada lado. Afora isso, nenhum botão, qualquer mecanismo. Aparentemente, a operação se concretizava mediante controle remoto. De fato, nas mãos tanto da assistente quanto do doutor havia um bastão da mesma cor azul-metálica da cápsula e repleto de botões. A um gesto do doutor, uma das portas se abriu, para cima. A assistente o pegou pelo braço e conduziu até o interior da cápsula. No exíguo compartimento não havia nada, exceto o ar sufocante e asséptico. Enquanto usuário, ele teria que ficar de pé ali, entre quatro paredes, e esperar... Então adormeceria e, como num sonho, antes de cair, despertaria do outro lado, outro. O processo não consumia mais que dois minutos, garantiu a moça, com uma voz de veludo e um sorriso provocante. Quando fez menção de deixá-lo, ele protestou:
“Não”.
“Não?”, ela disse, surpresa.
Não estava preparado.
“Ninguém jamais estará”, filosofou o Dr. K.
Abandonou o estreito compartimento. Durante o tempo que esteve ali suas mãos passearam pela lisa superfície metálica. Assim vira, certa vez, num filme antigo, um homem tocar os livros na estante. Espécie de despedida ou de reconhecimento de um universo ou instante já perdidos ou por esquecer, brevemente... O súbito roçar da morte, talvez, ou o despertar para um incerto mundo de sensações. A verdade era que ali, naquela espécie de ataúde, ele iria desaparecer em breve, e para sempre. Seu último ato nesta vida.
“Eu sei”, disse, com um considerável atraso e no tom vazio e hesitante de alguém que a vida inteira foi um tímido, um inadaptado. “Amanhã, sem falta.”
Naquela tarde foi visitar a mãe no asilo. E talvez se despedir. Não foi difícil: a velha, diante da tevê, se assemelhava a um peixe impassível dentro do aquário. Emanava indiferença e fleuma. Não era o filho que estava ali, mas um homem qualquer, estranho. O lábio inferior, caído, acentuava-lhe a expressão de desdém e alheamento. Comiserado, ele puxou uma cadeira e se interpôs entre a mãe e a tevê. Para seu assombro, a mulher continuou a olhá-lo como se ele fosse uma extensão do aparelho. E mesmo quando ele o desligou ela não esboçou nenhuma reação. A definitiva ausência de vida útil a suprimira de si mesma. Restava-lhe agora fundir-se à noite... Esta certeza o esmagou.
A esposa o procurou na cama, mas, pela primeira vez desde que se conheciam, ele a recusou, com elegância e uma contenção sexual incomum nos homens. Sem rancor, ela se virou e adormeceu, em segundos, dissolvida na exaustão. De seu lado, ele já ia sonhando, sonhando e sendo absorvido. O Dr. K. e sua assistente os receberam sem ânimo, os gestos bruscos e automáticos. Quando afinal a moça lhe perguntou, friamente, quem desejava ser, ele ficou prostrado, sem palavras. Não concebia a vida como uma escolha senão obscura, indefinida, do acaso...
“Vem”, a moça disse, puxando-o delicadamente. “Não importa. É sempre assim, com todos...”
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Mayrant Gallo. Baiano, poeta e contista, autor de “Dizer adeus” (contos, Edições K, 2005). É colaborador regular do Correio da Bahia, com crônicas, contos e ensaios.
http://mgallo.zip.net/


TRÊS CONTOS DE MAIRA PARULA
1.
Amar é sofrer, eu vou te dizer. "Não se esqueça de trazer uma lagosta pra mim", disse ela bem assim na beira do cais antes de eu partir para um mergulho de onde não sabia se voltaria. Agora aqui, a 45 metros de profundidade, e descendo cada vez mais, fico me perguntando por que não a mandei à merda, sem endereço. Desde criança que tenho dois sonhos: resgatar do fundo do mar a cruz do bispo Sardinha e me apaixonar por uma samurai que pisasse minha garganta até que me faltasse o oxigênio pra eu gozar. Se isso é pecado, me puna. A cruz do bispo eu ainda não achei, mas continuo mergulhando, e fundo, muito fundo. Tão fundo que acabei descobrindo Isabel dentro de uma ostra, escondidinha. Hoje vivemos juntas, só eu pago o aluguel enquanto ela arde na Fogueira Santa de Israel. Amar é sofrer, não preciso dizer mais do que as canções banais: é só uma gota de sangue verbal, apaixonei-me por uma obreira pentecostal.
2.
Jurandy me deixou aqui pensando. Foi buscar um côco. A areia pinica minha bunda. Jurandy gosta de praia deserta. Pra mim tanto faz. Ele diz que gente demais mancha o mapa. Jurandy fala bonito. No princípio eu assustava. Agora acostumei. Deixo ele falando sozinho. Como um rádio. Enquanto ele fala eu penso. Falo comigo coisas que Jurandy não ouve. Porque se ouvisse não ia me beijar com tanto gosto. O mar me deixa triste. Triste mesmo. E tristeza é coisa de vício. Não dá pra controlar. Se eu entrasse na água a gora, Jurandy nem ia ver. O que a gente não vê não dói. Não tem do que lembrar. Lembrar que eu fui bem pra longe, mas tão longe que ele nunca conseguiu me alcançar.
3.
Quando ela entrou pela porta da cozinha, vi em seus olhos que havia acabado. Perdi o apoio dos pés. Conversas não adiantariam mais. Já havíamos moído toda a carne. Voltei-me para meus amigos. Eram nove pessoas transpirando álcool numa cozinha abafada e alguma coisa dentro de mim se aconchegava. Outra incomodava. Na sala alguém ouvia Cranberries sem parar. Ela teria rido de mim se já não me ignorasse. Todos teriam rido de mim se já não estivessem rindo de outra coisa. Sem tirar o cigarro da boca, ela abriu a geladeira num impulso motor. Os músculos de minhas costas trincaram. A geladeira abraçou-a. Eu não tive a mesma sede.
---
Maira Parula. Gaúcha, autora de “Não feche seus olhos esta noite” (Ed.Rocco, 2006). http://www.prosacaotica.blogspot.com/

COMIDA
Teteka Alves do Nascimento, sensibilizada pelas notícias em torno do Dia de Ação de Graças, quis comemorar a data de uma maneira condigna, algo mais do que fantasiar os filhos de vampiro para a escola, como fizera no recente Halloween. A humanidade sofredora estava necessitada da sua contribuição, podia perceber isso quando saía às compras e se deparava com indigentes enfeando as ruas. Convocaria o motorista, reuniria forças e iria entregar, pessoalmente, uma refeição para os primeiros maltrapilhos que encontrasse.
Dispensou a criadagem, fizessem o que lhes desse na veneta, desde que estivessem a postos para a preparação do jantar, mas reteve Carlos, precisaria do carro. Sentia-se, assim, em melhores condições para vasculhar a cozinha, a despensa e a adega. Primeiro, abriu o freezer das carnes vermelhas, mas ter que assar alguma já era exigir demais de sua benevolência. No de frutos do mar, achou uma linda lagosta, isto sim, era o tipo de refeição que um faminto jamais esqueceria; colocou-a sobre o balcão. No de aves, localizou o peru reservado para a celebração de logo mais, os patos para alguma comida alemã, uma lebre que ali não deveria estar, as perdizes e marrecas das caçadas de Romano, e uma profusão de frangos; tudo, evidentemente, cru, à exceção de uma galinha caipira que fora congelada assada, e, intacta, esperava por dentes ávidos; separou-a. Da geladeira, colheu os escargots restantes do jantar francês de segunda-feira.
A lagosta, claro, estava crua, mas alguma coisa essa gente também poderia fazer por si mesma; afinal, não os tinha visto ao redor do fogo, embaixo do viaduto, assando qualquer nesga num espeto recurvado? Na adega do porão, examinou vinhos franceses, italianos, portugueses, chilenos, mas se conteve, num assomo de lucidez, antes de visitar latitudes menos prováveis. Nada disso, não iria instrumentalizar a bebedeira de ninguém. Subiu para a área de serviço, e de um móvel embutido retirou um conjunto de sacolas, escolhendo uma que lhe trazia boas lembranças de Luxemburgo; eles mereciam, o dia era mesmo especial.
Lembrou-se, porém, que só comer não bastaria, fazia-se necessário algo que tornasse mais bonitas aquelas vidas isentas de sentido. Com um excesso de cuidados, como se pudesse ser flagrada a qualquer instante por alguém que, fora do seu conhecimento, estivesse habitando a casa, percorreu salas e ambientes até retirar da mesa do espelho do hall um ikebana comprado no dia anterior. Não importava que já se extinguira sua anunciada duração ritual de vinte e quatro horas; os mendigos não se preocupariam, à japonesa, com a eterna mudança propiciada pela passagem do tempo; se nem ela ligava para esses orientalismos, por que eles haveriam de se preocupar; continuava bonito, viçoso e colorido, apesar de uma pequena necrose tê-lo maculado durante a noite. O arranjo fazia-se de uma flor de única pétala, enorme, amarela, cravada pela haste na argila e disposta na horizontal; de um verde e frágil junquilho, que, desde a haste da flor amarela, apontava para o alto; e de um galho finíssimo, negro, resistente, encimado por um botão diminuto, débil, e também amarelo, que completava a filosófica tríade pendendo para dentro do conjunto.
Chamou o motorista, juntou os víveres, e saiu no automóvel cinza-metálico que acabara de chegar do porto de Rio Grande, presente de aniversário que lhe dera Romano, talvez para compensar sua inextinguível ausência, fosse pelos afazeres nas empresas durante a semana, pelas sádicas caçadas nos dias de descanso ou pelas malditas e constantes viagens ao exterior.
Ande por aí, quero ver a paisagem – disse ao motorista, envergonhada de lhe confessar seu verdadeiro intento. Todavia, depois de algumas voltas, ordenou-lhe passar pela avenida Ipiranga, na pista mais próxima do bueiro central, onde mal se desprendia das margens o arroio Dilúvio, tal a quantidade de dejetos e esgotos que suportava. Não custou muito, percebeu uma movimentação embaixo de uma das pontes. Mandou Carlos estacionar a duas quadras, dentro do shopping, enquanto descia sem lhe revelar nada. Voltou a pé em direção à ponte, a última antes do gelatinoso arroio lançar-se no estuário do Guaíba, balouçando orgulhosa a sua caritativa sacola.
Do lado do viaduto, de onde subia a morrinha de uma fumaça esbranquiçada, gritou “oi moço”, mas não foi atendida. Desconfiou não houvesse ninguém em casa, mesmo assim, decidida, avançou uns passos pelo declive e repetiu o “oi moço”, apesar de ter diante de si uma mulher e dois homens. Sem saber o que dizer, arrependeu-se antes mesmo de qualquer contato, tão horríveis lhe pareceram os poucos dentes do homem negro, as nódoas de sujeira presas ao cabelo do homem ruivo, e as pernas abertas da mulher, sentada sobre uma pedra, deixando entrever o pano imundo que lhe servia de peça íntima. Para sair do constrangimento a que se impusera, ergueu a sacola luxemburguense e antecipou:
– Trouxe uns petiscos.
– Comida?! – arregalou os olhos o negro.
– É sim, e da melhor. Hoje é Ação de Graças, sabe, a festa norte-americana, e eu...
Olhou para dentro da sacola e retirou lépida o pote de escargots, alcançando-o. A mulher o tomou com repentino alvoroço, abriu-o, e pausadamente exclamou, entre decepcionada e compreensiva:
– Moça, a gente é pobre, mas nunca comeu caramujo.
– Talvez vocês não estejam habituados, é coisa fina, importada.
– Pode deixar aí – apressou-se o ruivo, pensando no seu cachorro. – Que mais que a senhora trouxe?
Temerosa de ofendê-los, retirou devagar a enorme lagosta:
– Ainda precisa ser preparada – sorriu amarelo.
Um dos homens a pegou, aproximou do nariz o fedentino animal, e, por uma educação atávica e esquecida, colocou-a sobre o banco de madeira. Teteka aligeirou-se e passou a mão na galinha, isso eles deveriam conhecer. A mulher da ponte apanhou com as duas mãos aquele coco congelado, sentiu o frio espinhar-lhe os dedos, e o deixou cair, o que fez que rolasse para o Dilúvio:
– Também não prestava. Olha só, tá boiando!
Esperançosa de que depois a fome os fizesse comer os escargots e preparar a lagosta, anunciou o ikebana com um sorriso nos lábios, uma flor nem o mais bruto dos seres recusaria.
– Tá bom, moça – falou o negro. – Mas na próxima a senhora vem com um bife no feijão-com-arroz, que a gente agradece.
Teteka retirou-se aborrecida. “Mal-educados e ignorantes.” Dirigindo-se ao shopping, contudo, já pensava de outra maneira. Contaria para a Gina, e para todos na festa da consulesa, sua grande ação de graças, e de como sentira preencher-se um vazio no seu peito enquanto assistia àquelas pessoas devorarem a carne dos caracóis iniciais e chorarem de agradecimento pelo que lhes proporcionara. Não, nada de baixo-astral, de ruim chegava a vida.
Embaixo da ponte, o homem ruivo chamou o seu cão e lhe atirou os escargots. O animal os farejou um a um, deu de lombo e foi embora.
– Nem o Importante quis essa joça – disse.
– O caranguejo, não fedesse tanto, eu até vendia pros hippie fazer artesanato – concluiu o negro, antes do arremesso para o meio do rio.
Sentaram-se em torno das pedras fumacentas, inconsoláveis. Gigante e avermelhado, o sol se punha atrás das ilhas do Guaíba, deixando um rastro dourado e ondulante sobre as águas. De mão em mão, passaram o arranjo floral, e, por teimosia ou desagravo, o comeram.
---
Sidnei Schneider. Gaúcho, contista e poeta, autor de “Plano de Navegação” (poesia, Dahmer Editora, 1999). sbs303@terra.com.br

CARAPUCEIRO


QUANDO AS MULHERES ACORDAM


Impagável uma mulher quando acorda. Nada mais lindo e misterioso do que uma mulher acordando. Do que uma mulher antes das 10h da manhã, como uma vez vi umas fotos num livro de arte inglês, pelo que me lembro ou sonho. Uma mulher e suas verdades nos olhinhos que se espantam com o mundo como uma criatura que acaba de sair do útero, o maior dos sustos, o maior dos assombros da existência. Umas têm um mau humor tremendo, meu Deus, te deixam acuado, são capazes de te xingar, espezinhar, te maldizer, para depois te amar ainda mais. Outras acordam paranóicas com os cabelos, tenham caracóis, segredos, ou sejam lisos, loiros ou negros. Ainda mais se for no começo do amor, do caso, do namoro, do ensaio de casamento. Estas nos deixam na cama e correm para o espelho. Tudo por uma rápida conferência de Narciso. Se acham que estão “horríveis”, naquele jeito, como naquele hiperbólico julgamento, dote tão feminino, te abandonam por horas no banheiro... E voltam as mais lindas desse mundo. Existem aquelas que não estão nem ai, estas são raras, acordam e te presenteiam com aquele sorriso, como se tivessem sonhado com a possibilidade do nirvana ao teu lado, cria da tua costela, como canta o outro Chico, uma beleza de menina!

Os mistérios de uma mulher quando acorda são muitos. Umas simplesmente silenciam, no máximo um monossílabo, isso quando são, por alguma razão, indagadas. Elas têm dúvidas, ainda não sabem se amam ou não amam, elas ainda guardam velhas heranças amorosas, tudo bem, coisas da vida. Algumas acordam assustadas, como se dissessem, “que besteira eu fiz, nunca mais eu bebo”. Outras te mandam embora antes da aurora, para dormir o sono dos justos, o sono que livra de pesos na consciência e possíveis laços imediatos. Certíssimas.

Adoráveis aquelas que mantêm a posição de “conchinha”, embora os motores da cidade já ronquem, apesar de todos os despertadores, todos os celulares. Estão tão plácidas, jamais submissas. Existem aquelas que acordam e põem logo uma música, uma música de acordo com o clima. Se tem sol, rock´n´roll, se faz frio, jazz, algo cool... Se o dia está cinza, toca aquela, que diz assim, como não quer nada, uma porrada, “ah insensatez, que você fez, coração mais sem cuidado...”

Nada mais lindo e misterioso do que uma mulher acordando, seus gestos, a dramaturgia, o arranque para a vida ou a inércia nos teus braços. Os barulhos de uma mulher acordando, a música dos ossos se espreguiçando, os gerúndios tantos das ações e silêncios, o chuveiro ao longe a nos dizer tantos desejos e coisas, meu Deus, aquela água já escorre linda e faz pocinhas líricas nas saboneteiras...

Quantas dúvidas e quantas certezas acordam juntas quando uma mulher acorda.

----------Xico Sá

DUAS VOZES – música e literatura

Com o objetivo de divulgar e debater a produção musical e literária brasileira contemporânea a livraria Nova Roma, em parceria com o jornal Vaia, promove, mensalmente, o encontro de dois artistas (um músico/compositor e um escritor) para conversa, leituras de textos literários e pocket show.
O programa cultural Duas vozes – música e literatura pretende criar um espaço eclético para discussão de idéias, de todos os gêneros, grupos sociais e artísticos, tendo como linguagens a música e a literatura, além de tornar possível discutir e informar, colocando o público em contato direto com os artistas convidados para uma conversa descontraída e informal.
O evento tem duração de aproximadamente uma hora e meia e está dividido em três etapas: comentários sobre a obra dos convidados e breve entrevista; leituras e comentários dos artistas sobre seus trabalhos e participação do público e pocket show com o músico/compositor convidado.
No primeiro encontro – ocorrido em 29/09 - participaram o poeta e jornalista Nei Duclós e o escritor, compositor e músico Cláudio Levitan.
Em outubro - dia 27/10, sábado – os convidados foram a cantora e compositora Monica Tomasi e o escritor e jornalista Luiz Horácio.
Em dezembro – dia 01/12, às 18hs – estarão participando do evento o músico e compositor Nelson Coelho de Castro e o escritor Luis Augusto Fischer.
A livraria Nova Roma está localizada na rua Gen.Câmara, 394, Porto Alegre (telefone 30134535). A entrada é grátis.

Histórias do Brasil - quem não conhece não sabe o que tá perdendo

ANTOLOGIA CARIOCA (crônica de Luiz Antonio Simas)

Cante a tua aldeia e serás universal. Hoje cantarei minha aldeia, conforme o conselho do poeta. O que o Rio de Janeiro assistiu neste sábado é coisa de antologia. A Rua do Ouvidor, a mais charmosa da cidade, foi brindada com momentos absolutamente inesquecíveis, dignos de entrar para todos os anais da mui heróica e leal cidade de São Sebastião. Vamos aos fatos.
1- A livararia Foha Seca, templo maior da carioquice, organizou o lançamento do livro do jornalista Luís Pimentel, Noites de Sábado, e do cd do grande Zé Luiz do Império, com direito a uma roda de samba de primeiríssima qualidade, liderada pelo cavaco do Daniel Scisinio e pelo sete cordas do Tiago Prata, o grande Pratinha.
2- O samba aconteceu ao mesmo tempo em que na igreja da Santa Cruz dos Militares, na esquina da Ouvidor, rolava um casamento. Como a noiva, a Renata, se atrasou, os padrinhos resolveram aguardar a cerimônia na roda de samba. Cheios de salamaleques e meio-fraques, abandonaram a liturgia do cargo e encheram o pote. Estimulado pelos jornalistas José Sergio Rocha e Cesar Tartaglia e pelo caricaturista Cássio Loredano, o noivo, o Horácio, desistiu de esperar a consorte no altar e também resolveu curtir o partido-alto. Zé Sergio, Tartaglia e Loredano tentaram de todas as formas convencer o Horácio que o samba era melhor que o matrimônio. Alguns mais ousados queriam cooptar a noiva para a quizumba. Os padrinhos, já dobrando o Cabo da Boa Esperança, concordaram. A cena, carioquíssima, foi digna das páginas mais inspiradas de um Sérgio Porto; Zé Luiz cantava Malandros Maneiros, um clássico em homenagem aos bicheiros da velha guarda, e os convidados do casamento acompanhavam na palma da mão. No auge da irresponsabilidade, o noivo convidou os presentes, a maioria esmagadora de bermudas e chinelos de dedo, para a festa do casório. O povão ovacionava os pombinhos de forma colossal - com gritos de Aha-huhu- ô Renata eu vou comer seu bolo! e coisas do gênero.
3- O jornalista Álvaro Costa e Silva, o famoso Marechal, ainda sóbrio, me disse: - Simão, eu sou Império Serrano, Botafogo e Bafo da Onça. Horas depois, aos prantos, Marechal me segurou e afirmou com a urgência dos condenados: - E Emilinha! Eu também sou Emilinha...
4- Zé Luiz do Império, estimulado por doses generosas da água que o passarinho não bebe, resolveu homenagear a Rua do Ouvidor, a Folha Seca e o Rodrigo Ferrari, que comanda a livraria ao lado da Daniela Duarte. Disse o Zé Luiz:
- Obrigado ao Rodrigo. Valeu, Rodrigo.
Imediatamente, ouviu-se uma única pessoa aplaudindo o Rodrigo. Era ele mesmo, o próprio Rodrigo Ferrari, que se aplaudia numa espécie de auto-homenagem comovente. Digão, já tocado, falou-me emocionado:
- Só eu me aplaudi.
5- O percussionista Carlos Negreiros, que deu uma bela canja, exclamou entusiasmado com a performance do Pratinha:
- Que sete cordas é esse? Escutem o sete cordas.
O compositor Jards Macalé, também estarrecido com as diabruras do garoto, perguntou:
- Quem é o menino do violão? Quem é esse monstro?
6- Sabem quantos policiais estavam fazendo a segurança do evento? Nenhum! Sabem quantos conflitos ocorreram? Nenhum! Vivemos um sábado monumental, digno de figurar num conto do Lima Barreto, numa novela do João Antônio, ou num samba-de-breque do Kid Morengueira.
O Rio de Janeiro vive!

EVERTON BEHENCK





Everton, vamos começar falando sobre a tua trajetória de poeta até aqui. Tem livro(s) publicado(s) ou pronto pra ser publicado(s)? Publicou onde teus poemas, revistas, jornais, concursos, internet?
Não tenho livro publicado. Tive dois poemas publicados em antologias. Uma em São Paulo e outra aqui na Feira do Livro, no projeto Habitasul Revelação Literária na Feira. E outros quatro na Revista Entre Livros, em novembro de 2006, numa parte da revista dedicada a novos autores. No mais, Internet. No Vaia, em sites de relacionamentos e agora em um blog: http://apesardoceu.wordpress.com/.

Ser poeta é mais talento ou esforço? Descobriu-se ou inventou-se poeta?
Acho que começa no talento. Mas acontece mesmo no esforço. No trabalho de ouvir o poema. Ouvir se ele está cantando para as pessoas. Se está cantando afinado. Com sentimento. A poesia, para mim, sempre esteve muito ligada à música. Ao ritmo. Então esse é o esforço. O trabalho. Mas não gosto de pensar nesse esforço como uma “cerebração” total da poesia. E sim passar o verso várias vezes por um filtro de sentimento. O que a gente sente, ainda não é poesia. Como disse o Drummond. Mas sem o que a gente sente, também não existe poesia. Não lembro direito quando comecei. Mas foi bem jovem. Bem inconsciente, mesmo. Aquela coisa da pré-adolescência. Sempre tive a melancolia por perto. Com uns dez, onze anos comecei a colocar coisas no papel. Aquele velho clichê da necessidade de expressar. Não fazia idéia do que estava fazendo. Mas continuo fazendo. Pelos mesmos motivos.

Quais livros (poesia e/ou prosa) fizeram parte da tua formação?
Na minha casa não tinha livros. Lia o quem aparecia. Ou o que me emprestavam. Mas em um momento, quando eu já era mais velho, comprei alguns livros de um amigo do meu chefe que tinha voltado de Fortaleza e estava sem dinheiro. Entre eles estava o Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas. De Robert M. Pirsig. Um Road Book filosófico. Li umas três vezes. Ta lá na minha instante todo sublinhado e cheio de notas de rodapé. Os pensamentos sobre o ser “romântico” e “clássico” e o anticonceito de qualidade que ele apresenta piraram a minha cabeça na época. Teve um impacto grande em mim como pessoa. Assim como o Nietzsche com o Humano, demasiado humano. Um filosofo que estou sempre relendo e que, agora, felizmente, está na moda.

Teve/tem algum incentivador? Quem?
Felizmente sim. Sempre. Primeiro para ler. Uma senhora que me comprava livros. Chegava em casa e tinha quatro, cinco livros novos me esperando. Me deu muitos livros que não escolhi. Mas alguns deles me escolheram. Depois para escrever. A Claudia Tajes. Que incentiva tanto que me convidou para fazer uma participação especial no seu último livro: Louca por Homem. Fiz os poemas do personagem de um dos capítulos do livro, que é poeta e se relaciona com a protagonista. Ela foi fundamental para que quisesse mostrar os versos, colocar a cara para bater. O Professor Luis Augusto Fischer também teve ótimas palavras a meu respeito quando pedi a ele indicação na busca por espaço para publicar. E o Fabrício Carpinejar, de quem sou fã, e foi muito generoso ao me indicar para a revista Entre Livros. Me ajudou muito a conseguir publicar lá. Foi um grande incentivo.

O que te inspira a escrever? O que é matéria para a tua poesia?
Tudo o que eu sinto. E a relação desses sentimentos com o mundo ao redor. Com as coisas mais simples. Com as emoções dos outros que vejo e sinto por aí. Tudo merece um verso.

Costuma começar pelo primeiro ou pelo último verso? Qual deles é o mais difícil? O que detona o poema?
Começo sempre pelo começo. Foram raras as vezes que não foi assim. Às vezes o fim vem no meio. Aí deixo ele de lado, termino de desenvolver e coloco o fim. Começo a sentir angústia. Aquilo vai tomando forma. Ganhando peso. É mais um clichê mas é exatamente assim. Sinto no peito. Como se fosse sendo preenchido por esse sentimento. Um, dois dias. Aí, escrevo um, dois, três poemas. De um fôlego. Depois trabalho em cima. Reviso. Leio em voz alta. Outra coisa que acontece muito é escrever para dizer algo a alguém. Como um recado. Uma carta. Ou como resposta a uma pergunta. As vezes alguém diz algo que me toca e faço um verso.

Há idéias ou imagens que te perseguem, que ficam grudadas no teu juízo algum tempo?
Sim. Não sou o cara mais original do mundo, mas são imagens muito fortes para mim. Coisas que sinto com força muito grande. O peito. Como um lugar imenso onde estou sempre me perdendo. Sempre encontro minha multiplicidade nesse espaço. Sei que não é a imagem mais nova do mundo. Mas sinto isso de um jeito tão forte que não consigo fugir dessa imagem. Outra, menos recorrente é a do espelho. O que ele mostra ou o que não mostra. Talvez em função de muitas experiências lisérgicas em frente ao meu próprio reflexo. Ou então os sentimentos como personagens. Sentimentos com sentimentos. Ou sentimentos com atitudes humanas. Personificados. Existem outras, mas menos recorrentes.

Qual é a tua relação com a cidade onde mora, porto alegre? No que isso influencia a tua poética e se manifesta no que tu escreves?
Bom. Sou fruto de Porto Alegre. Então, a mão que escreve é de um portoalegrense. Mas acho que na prática, a cidade está mais em mim do que no que escrevo. Busco muito a simplicidade. A universalidade. Queria escrever para todos. Acho que não marcar traços muito regionais, pelo menos de forma explícita, faz parte disso.

Como define a tua poesia? Como caracterizaria tuas principais ambições estéticas?
Simplicidade. Quero fazer uma poesia simples. Popular. Com imagens simples que todos entendam. Uma poesia da emoção. Dos sentimentos, sejam quais forem. Desde que sejam sinceros. Só isso.

Tu identificas uma geração literária hoje, ou um grupo de poetas brasileiros com projeto comum definido? E tu te vês fazendo parte de alguma geração literária?
Acho que não. Mas com certeza mais por ignorância minha do que pela inexistência dessa geração. Ou gerações. A impressão que eu tenho é que a pluraridade é tão grande que poderiam ser reunidos poetas com todo o tipo de estilos. Desde os mais herméticos e eruditos até rappers. Não me vejo fazendo parte de nada, na verdade. Sigo fazendo o que eu faço e vou seguir fazendo apesar de qualquer coisa. Conheço algumas pessoas que se alinham um pouco com o que eu faço. Um amigo em Curitiba, uma menina em Minas, outra aqui em Porto Alegre. Trocamos coisas. Nos lemos. Mas longe de ser uma geração ou movimento.

Recebeu ou recebe conselhos importantes de escritores na tua trajetória? Como foi e é o diálogo com outros escritores, da tua e de outras gerações?
Recebi uns conselhinhos do Carpinejar por mail. Coloquei no meu blog com todo o orgulho. E tento absorvê-los. Mas como tenho essa visão romântica das coisas, sei que no fim vou fazer como estou sentindo. Seja lá como for. E a Claudia Tajes. Bom, ela não me dá conselhos, mas me empresta muitos livros. Ótimas leituras. Esses livros me dão muitos conselhos.

Tu lês crítica literária? Concorda com a idéia de que ela, nos jornais e revistas, está mais digestivo-introdutória do que analítico-crítica?
Não costumo ler crítica. Tenho uma relação muito simples com o que consumo em matéria de arte. Se eu gosto é bom. Se não gosto é ruim. Claro que acompanho lançamentos. Me informo. Mas acabo tomando conhecimento das novidades e afins, mais por amigos com o gosto alinhado com o meu do que pela crítica oficial. Quando leio, tento não ser muito influenciado pela opinião que está ali. Justamente por achar a crítica mais digestivo-introdutória. Se é que isso significa o que eu entendi. Não quero ser uma daquelas pessoas que lêem uma crítica, formam opinião e a reproduzem, às vezes, sem nem mesmo chegar a ler a obra.

A crítica literária pode influenciar a produção poética de uma geração?
Se você está olhando para a crítica, sim. Se está olhando para o que você sente, não.

Muitos poetas hoje apresentam uma versatilidade acadêmica. Eles conhecem várias línguas, traduzem, fazem ensaios, críticas, resenhas, estudam várias disciplinas. O poeta precisa ser um erudito? Poesia só se faz com muito estudo?
Pra mim, poesia só se faz com muita sinceridade. Claro que estou sendo simplista. Claro, também, que não vou fazer uma apologia da ignorância. Meu histórico escolar é terrível. Com expulsão de colégio, parada nos estudos, retomada com supletivos. Mas sempre busquei cultura. Conhecimento. Só não me agrado muito das instituições estabelecidas. Mas acho que minha resposta está na banda Cordel do Fogo Encantado. Eles contam uma história de um poeta nordestino chamado Zé da Luz. Contam eles, que disseram para o poeta que para falar de amor era preciso muito estudo. A resposta foi:
AI! SE SÊSSE!...
Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e se tu com eu insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!
Zé da Luz

Como leitor de poesia o que tu achas que de mais importante um poeta tem que expressar na poesia que faz?
Expressar sua verdade. O que sente de mais íntimo. Mais denso. Mais forte. Mais sincero. Acho a capacidade de imprimir uma emoção em uma obra e essa impressão ser tão forte que chega ao leitor, entra nele e vai buscar, lá dentro, a sua correspondente no outro, uma das coisas mais sublimes e mais humanas. Acho que é aí que a poesia acontece realmente. Pelo menos para mim.

Qual a relação entre poesia e técnica? Basta dominar certas técnicas para ser poeta?
Basta ser dominado pela poesia para ser poeta. Sou intuitivo. Por isso sou simples. E simplório muitas vezes. É a vida. Minha relação com a poesia passa tão longe da técnica, do pragmático. Não consigo ver um poeta só da técnica. Claro que existem formas e fórmulas consagradas. Ou novas. Mas na minha opinião elas devem ser apreendidas para aumentar as possibilidades. Para ter receptáculos mais variados, talvez, para a poesia. Mas o que vai correr na veia da técnica. Da forma. Isso não se aprende. Aquilo que toca o outro de verdade, isso não está na técnica. Por mais que eu ache que devemos aprender, pensar, discuti-la e colocá-la em prática.

A poesia tem prestígio no âmbito da nossa cultura?
A impressão que tenho é que ela tem. Mas quase como um senhora que todos amam, respeitam, ou dizem amar e respeitar. Uma senhora que ninguém ousa agredir, mas que poucos gostam de visitar.

Qual a função social da poesia?
A poesia nos humaniza. Sensibiliza. Nos deixa mais suscetíveis aos sentimentos. Mesmo que não sejam nobres e bonitos. Acho que estamos muito distantes dos sentimentos. O homem comum, urbano, parece não sentir muito, nada. A poesia faz isso. Fura essas barreiras. Nos deixa menos endurecidos. E se olharmos ao redor, estamos precisando muito disso. Mas também pode ser mais simples. Um verso ajuda um homem a conquistar a mulher que ele julga ser o amor da sua vida, eles casam e tem filhos. Acho que o verso cumpriu um papel social lindo. Vocês não acham?

Qual a melhor editora brasileira? E qual a que edita e publica melhor livros de poesia?
Desculpe, mas não tenho informação suficiente para responder essa pergunta. As estantes das livrarias quase não tem poesia. Escondida num canto da loja. Mas a internet está cheia de versos. Sem julgamento de qualidade, isso deve significar algo.

Já participou ou pensa em participar de oficina de poesia? Como ela foi/será?
Nunca participei. Participei de uma curta oficina de contos. Achei muito interessante. Não sei exatamente como é/seria uma oficina de poesia. Talvez nos mesmos moldes que uma de conto. Com leitura de autores consagrados, discussão destes, proposta de temas, produção própria, leitura e discussão sobre essa produção. Acho muito válido qualquer exercício, discussão, leitura ou produção em função de um aperfeiçoamento. Então, acho muito válido qualquer curso ou oficina para buscar isso. Quem sabe quantos atalhos podem ser aprendidos. Coisas que a gente leva anos para aprender sozinho. Quando sobrar grana e um tempo, faço aquele curso de escritores da Unisinos.

O que tu achas do jornal Vaia?
Foi um espaço que me encontrou e não o contrário como é mais comum. E isso é muito importante. Me deixou muito feliz e também me fez pensar. Como isso é um sinal de que o jornal é instigado, valoriza a nova produção, procura conhecer. Assume esse papel. Provoca, dá espaço. E age. Faz eventos. Se descola da tela do computador, das páginas do jornal e vai pra vida. Mobiliza as pessoas. Faz as coisas efetivamente acontecerem. Podem contar comigo pra qualquer função.

Repito uma pergunta que a Clarice Lispector sempre fazia aos seus entrevistados: o que é mais importante na vida pra ti?
O importante é viver. Apesar do céu.

Poema de aniversário

Um dia

Vou me desfazer

Na terra

Me diluir

Em partes

Tão pequenas

Que a partir delas

Poderia ser:

O que for

O que der

O que o chão quiser

Não ser nada

Exatamente

Como sou agora

Uma parte

De um Tudo

Tão complexo

Que não há palavra

Para dizê-lo

E como é bom

Não sabê-lo

O que te prende ao chão?

Essa força

Que força tudo

Ao centro

A terra dura

A água pura

O ar

Onde me afogo

O que te joga ao céu?

Esse não poder ser só

Eu rogo a alguém

Que não sei o nome

Mas cada noite

Insone

O conhece

Não sei da prece

Mas o milagre conheço

De perto

Mas nenhum milagre

Impede a tarde

Que parte

Um dia não vou ser mais

Que um voltar pro mundo

Notando o peito

Na memória de quem fica

Nada explica

A vida

Esse destino inevitável

Nada sabe

A morte

Esse voltar a fazer parte

Como sabemos ser eternos?

Se nem mesmo

O próximo segundo nos pertence

Somos o fogo de uma vela

É bom que queime.

--------Mais aqui Apesar do céu